"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

45- Memória de Trabalho e Memória de Curto Prazo

A memória de trabalho (MT) é o sistema cognitivo responsável pelo armazenamento temporário e pela manipulação da informação e tem um papel importante no aprendizado e na focalização da atenção. Muitas pesquisas têm documentado que muitas crianças e adultos com TDAH têm déficits de memória de trabalho e que isso contribui para as dificuldades associadas ao transtorno. Para uma excelente introdução ao papel dos déficits da memória de trabalho no TDAH, visite o site:
http://research.aboutkidshealth.ca/teachadhd/abc/chapter3#SUBTITLE3

Um exemplo simples ilustra a importância da MT para determinadas tarefas acadêmicas. Tente somar 3 e 9 na sua mente. Provavelmente isto é fácil para você. Agora, tente somar 33 e 99. Provavelmente isto será mais difícil. Finalmente, tente somar 333 e 999. Isso será muito desafiador para muitos adultos, mesmo que cada cálculo requerido seja trivialmente fácil. A dificuldade ocorreu porque você precisou guardar a informação – a soma de 3+9 na coluna das unidades e, então, na coluna das dezenas – conforme você processava a parte restante do problema, isto é, 3+9 na coluna das centenas, e isso sobrecarregou sua MT. Se a sua capacidade de MT for excedida, você não poderá completar o problema com sucesso.

Este problema simples também ilustra a diferença entre memória de curto prazo (MCP) e MT. A memória de curto prazo simplesmente envolve a retenção da informação na mente por curto período de tempo, por exemplo, lembrar-se de que o problema que você precisa resolver é 333 + 999. A memória de trabalho, em contraste, envolve a manipulação mental – ou o trabalhar com - da informação retida e começa a funcionar numa série de atividades de aprendizagem. Por exemplo, para responder questões sobre um capítulo de ciências, uma criança não somente tem de reter corretamente a informação factual, mas precisa trabalhar mentalmente com aquela informação para responder perguntas sobre ela. Então, quando a capacidade de MT de uma criança é baixa em comparação com a dos seus colegas, o desempenho acadêmico provavelmente será comprometido em múltiplas áreas.

Como os déficits de MT têm um papel importante nas dificuldades sentidas por muitos indivíduos com TDAH, é importante considerar como as diferentes intervenções corrigem este aspecto do transtorno. Neste estudo, os autores estavam interessados em comparar o impacto do treinamento da MT e o tratamento com medicação estimulante no desempenho da MT de crianças com o diagnóstico de TDAH.

Os participantes eram 25 crianças de 8 a 11 anos de idade, com TDAH (21 meninos e 4 meninas) que estavam sendo tratados com medicação estimulante. O desempenho da memória das crianças foi avaliado em 4 ocasiões, usando o AWMA (Automated Working Memory Assessment – Avaliação Automatizada da Memória de Trabalho) que é um teste computadorizado que mede a memória verbal de curto prazo, a memória verbal de trabalho, a memória visuoespacial de curto prazo e a memória visuoespacial de trabalho.

No primeiro tempo, a avaliação foi conduzida enquanto as crianças estavam sem medicação por ao menos 24 horas. A segunda avaliação ocorreu em media 5 meses mais tarde,  quando as crianças estavam tomando a medicação. A terceira avaliação ocorreu após as crianças terem completado 5 semanas de Cogmed Working Memory Training (Treinamento Cogmed da Memória de Trabalho) usando o protocolo padrão de treinamento (veja a seguir). A avaliação final ocorreu aproximadamente 6 meses depois do término do treinamento. O planejamento permitiu aos pesquisadores as seguintes comparações:

- desempenho da MT sob medicação vs. sem medicação (T1 vs T2)

- desempenho da MT sob medicação vs. após treinamento (T2 vs. T3)

- desempenho da MT imediatamente após final do treinamento vs. 6 meses em seguida ao treinamento (T3 vs. T4)

Esta comparação final forneceu informação sobre a permanência de algum benefício que o treinamento tivesse proporcionado.

Além de medir a MCP e a MT a cada tempo, foram feitas medidas do QI nos tempos 1, 2 e 3.

- Treinamento da Memória de Trabalho -

O treinamento da MT foi conduzido utilizando-se o protocolo Cogmed padrão de treinamento, com cada criança completando 20-25 sessões de treinamento num período de 25 dias. O treinamento requer a armazenagem e manipulação de seqüências verbais, por exemplo, repetir de trás para frente uma seqüência de números e/ou informação visuoespacial, como lembrar a localização de objetos em diversas partes da tela do computador.

O nível de dificuldade foi calibrado com base em vários testes, de modo que a criança sempre trabalhasse em  nível que fosse o mais próximo do seu desempenho. Por exemplo, se uma criança lembrasse com sucesso de três números na ordem inversa, no próximo teste ela tinha de lembrar-se de quatro números. Quando um teste falhasse, o próximo era feito de modo mais fácil pela redução do número de itens que teriam de ser lembrados. Este método de treinamento adaptativo é tido como um elemento chave porque requer o espichamento da memória de trabalho da criança, para continuar a seguir no programa.

Resultados

- Impacto na Memória de Curto Prazo e na Memória de Trabalho

Medicação vs. nenhuma medicação – quando testadas sob medicação, as crianças mostraram melhor MT visuoespacial em relação a quando foram testadas sem nenhuma medicação. Entretanto, nenhuma melhora foi encontrada na MCP verbal, na MT verbal ou na MCP visuoespacial.

Desempenho sob medicação vs. desempenho após treinamento da MT – O treinamento Cogmed da MT levou a ganhos significativos em todos os quatro resultados das memórias. Assim, houve evidência de que o treinamento da MT levou a maiores ganhos na MT do que o tratamento isolado com medicação. Em todas as áreas de memória avaliadas, a pontuação media dos participantes aumentou de abaixo da média para dentro da faixa média.

Desempenho 6 meses depois do término do treinamento – Os ganhos do treinamento em 3 dos 4 componentes da memória – todos exceto a memória visuoespacial de curto prazo (MCP) – permaneceram significativos 6 meses após o fim do treinamento e houve poucos indícios de declínio no desempenho das crianças. Então, os benefícios evidentes imediatamente em seguida ao tratamento foram largamente persistentes.

- Impacto no QI -

Os resultados do QI com e sem medicação foram equivalentes. Do mesmo modo, não houve nenhuma indicação de que o treinamento da MT estava associado a algum aumento nos resultados de QI das crianças. Assim, os benefícios do treinamento foram restritos ao desempenho das crianças nas tarefas de memória.

- Resumo e Implicações -

Os resultados desse estudo indicam que o treinamento da MT promove maiores benefícios na MT para crianças com TDAH do que os promovidos pelo tratamento com medicação estimulante. Além disso, os ganhos de memória seguintes ao treinamento persistem por um período significativo. Como o funcionamento adequado da MT é criticamente importante para o sucesso acadêmico das crianças, esses achados são encorajadores porque eles sugerem que o treinamento intensivo pode melhorar os déficits nesta importante função executiva. A ausência de benefícios do treinamento no QI sugere que os benefícios do treinamento podem estar limitados especificamente à memória de trabalho (MT), embora deva ser notado que outros estudos de treinamento da MT relataram benefícios em aspectos particulares da inteligência. Então, o impacto do treinamento da MT no QI requer novos estudos.

Entretanto, é importante não exagerar na interpretação dos resultados desse estudo. Embora seja tentador ver isso como uma comparação entre o tratamento medicamentoso e o treinamento da MT para o TDAH, e ver os resultados como indicativos da superioridade do último, isso seria interpretação errada. A constelação de dificuldades que compreende o TDAH para muitas crianças vai muito além dos déficits de MT, e esse estudo não examina vários outros importantes resultados.

Por exemplo, ele não fornece nenhuma informação sobre os benefícios relativos da medicação e do treinamento da MT na atenção, hiperatividade e outros problemas de comportamento, e no desempenho acadêmico das crianças. Embora outros estudos tenham encontrado benefícios em várias dessas áreas, o acréscimo de avaliação desses resultados importantes ao estudo corrente teria produzido um reforço dele. Essa crítica não tem a intenção de diminuir os importantes resultados obtidos, mas, em vez disso, propiciar um contexto apropriado para avaliar esses achados interessantes e não seria surpresa se o tratamento medicamentoso tivesse um maior impacto em outras áreas importantes.

Também é o caso de o estudo ter sido limitado pela restrição da avaliação da MT a medidas computadorizadas dessa capacidade, embora estejam disponíveis escalas validadas de avaliação da MT por pais e professores. Incorporar tais medidas ao estudo proporcionaria uma melhor compreensão do funcionamento da memória das crianças a cada ponto de avaliação.

Embora essas limitações sejam importantes, os resultados proporcionam evidência adicional de que o treinamento intensivo da MT pode acrescentar benefícios duradouros nessa importante função executiva. Como os benefícios proporcionados pelo treinamento aumentam os proporcionados pela medicação, também é sugerido que o treinamento da MT pode ser de utilidade como complemento às intervenções existentes baseadas em evidência para o TDAH, particularmente para crianças cujo funcionamento da MT seja difícil de começar.

ADDitude Magazine – Inverno 2010

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