"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

terça-feira, 17 de maio de 2011

98- Pesquisadores investigam as causas da ansiedade com matemática

É mais do que só não gostar de matemática, segundo os especialistas. Por Sarah D. Sparks

Problemas de matemática fazem mais do que poucos estudantes – e até professores – suar, mas novas pesquisas sobre o cérebro fornecem o entendimento sobre as causas primárias da ansiedade, tão frequentemente associada à matemática.
Especialistas argumentam que a ansiedade ligada à matemática pode provocar desconforto generalizado com a matéria, o que pode levar desde  poucos estudantes aderindo à matemática e às carreiras científicas, até ao menor interesse público nos mercados financeiros.

“As pessoas ficam muito felizes em dizer que não gostam de matemática”, diz Sian L. Beilock, uma professora de psicologia da Universidade de Chicago e autor de “Choke”, um livro de 2010 sobre as respostas cerebrais às pressões sobre o desempenho. “Ninguém fica espalhando que não sabe ler, mas é perfeitamente aceitável, no meio social, dizer que não gosta de matemática”.

Entretanto, a ansiedade ligada à matemática é mais do que só não gostar de matemática; alguém com ansiedade ligada à matemática sente emoções negativas quando está engajado em atividade que requeira habilidades numéricas ou matemáticas. Em estudo a ser publicado por Beilock, a simples sugestão feita a alunos de faculdade, de que eles seriam solicitados a fazer um teste sobre matemática, provocou resposta de estresse no hipotálamo dos estudantes com alta ansiedade ligada à matemática.

Beilock e outros especialistas da conferência Cérebro e Aprendizagem, realizada de 5 a 7 de maio, estão pesquisando os problemas iniciais da carreira matemática de crianças, que podem evoluir para medos e dificuldades pela vida a fora. A conferência reuniu várias centenas de educadores e administradores com pesquisadores que trabalham com neurociência da educação e neurociência cognitiva.

O estresse no cérebro

A ansiedade tornou-se um tópico da pesquisa em educação, conforme educadores e legisladores ficaram altamente focalizados no desempenho de testes e em currículo mais intensivo, e a neurociência começou a fornecer uma visão de como o cérebro responde à ansiedade.

Ansiedades e estereótipos

Os pesquisadores descobriram que quanto mais ansiosas eram as professoras em relação à matemática, mais provável que as meninas – e não os meninos – aceitassem estereótipos sobre habilidades matemáticas. Por sua vez, as meninas que adotavam essas crenças estereotipadas estavam com desempenho em matemática menor do que os outros estudantes ao final do ano.

A ansiedade pode literalmente cortar a memória de trabalho necessária para aprender e resolver problemas, de acordo com Dr. Judy Willis, neurologista em Santa Bárbara, Califórnia, que antes foi professor de escola média e autor do livro “Learning to Love Math”.

Quando fica diante de um problema pela primeira vez, o estudante processa a informação na amígdala, o centro cerebral da emoção, que então dá prioridade à informação que vai para o córtex pré-frontal, a parte responsável pela memória de trabalho do cérebro e pelo pensamento crítico. Durante o estresse, há mais atividade na amigdala do que no córtex pré-frontal; mesmo um pequeno estresse como a visão de uma testa franzida antes de responder uma questão pode diminuir a capacidade de o estudante lembrar-se e responder corretamente.

“Quando engajados na resolução de problemas matemáticos, indivíduos altamente ansiosos em relação à matemática sofrem de pensamentos intrusivos e ruminações”, disse Daniel Ansari, o principal investigador do Numerical Cognition Laboratory da University de Western Ontário, em London, Ontário. “Isso prejudica um pouco do seu processamento e da memória de trabalho. É como se os indivíduos com ansiedade em relação à matemática usassem mais poder cerebral do que o necessário para o problema, quando ficam preocupados”.

Além disso, uma série de experimentos no Mangels Lab of Cognitive Neuroscience of Memory and Attention do Baruch College da City University de New York sugere que essa reação de estresse pode atingir mais duramente os estudantes que podem ser os mais entusiasmados com a matemática.

Jennifer A. Mangels, a diretora do laboratório, disse que testou a matemática com estudantes de faculdade em situação neutra ou em situações programadas para gerar ansiedade, tal como a menção de estereótipos de gênero sobre a habilidade matemática para as moças testadas, ou falar aos estudantes que suas notas poderiam ser usadas para comparar sua habilidade matemática com a dos outros.

Mangels descobriu, como em outra pesquisa, que estudantes testados em situações estressantes tinham menor desempenho matemático. Ela também descobriu que o estresse atingiu mais fortemente estudantes promissores.

Em testes não estressantes, os estudantes que mais se identificavam com a matemática, definidos como aqueles que aproveitaram melhor as oportunidades de aprender com os programas de matemática, tiveram os melhores desempenhos. Enquanto, sob estresse, os mesmos estudantes tiveram desempenho pior do que os que não se identificavam com a matéria.

“Estamos reduzindo a capacidade diagnóstica desses testes ao fazer os estudantes realiza-los em situação de estresse,” concordou Beilock.

Discalculia e viés

Dois problemas nas primeiras experiências escolares de uma criança – um biológico, o outro social – podem se transformar em grande medo da matemática mais tarde, dizem os especialistas.

Em uma série de estudos, Ansari e seus colegas do Numerical Cognition Laboratory descobriram que adultos com grande ansiedade em relação à matemática são mais propensos a ter capacidade menor do que o normal de rapidamente reconhecer diferenças de magnitude numérica, ou o número total de itens de um conjunto, o que é considerada uma forma de discalculia.

Como parte do desenvolvimento normal, as crianças tornam-se cada vez mais capazes de identificar qual de dois números é o maior, mas Ansari descobriu que aquelas com grande ansiedade em relação à matemática eram mais lentas e menos acuradas naquela tarefa, e ressonâncias cerebrais mostraram atividade diferente daquela de pessoas com baixo estresse em relação à matemática durante as mesmas tarefas.

Como a compreensão da magnitude numérica é fundamental para outros cálculos, Ansari sugere que pequenas deficiências iniciais nesta área podem levar a dificuldades, frustração e reações negativas em relação a problemas de matemática com o tempo.

Mais ainda, a ansiedade ligada à matemática pode tornar-se um problema de gerações, com os adultos que têm desconforto com a matemática passando sentimentos negativos aos seus filhos ou alunos.

Beilock encontrou professoras do primeiro e segundo grau com grande ansiedade em relação à matemática, o que interferiu tanto no desempenho quanto nos sentimentos sobre a capacidade matemática dos seus alunos. Em estudo com doze estudantes e seus professores do primeiro ano e cinco do segundo ano, os pesquisadores não acharam nenhuma diferença no desempenho dos meninos e das meninas em matemática no início do ano. Ao final do ano escolar, entretanto, as meninas ensinadas por professores com grande ansiedade em relação à matemática tiveram notas mais baixas do que os meninos, em matemática.

Além disso, aquelas meninas eram mais propensas a indicar um viés relacionado a gênero – “Meninos são bons em matemática; meninas são boas em leitura” – e quanto mais forte o viés, pior o resultado das meninas.

Este estudo, e outros semelhantes, revelam a necessidade de mais treinamento para os pais e professores sobre como superar seus próprios medos em relação à matemática e a evitar passá-los para as crianças, disseram Beilock e Ansari.

“A ansiedade dos professores ligada à matemática é realmente uma epidemia,” disse Ansari. “Penso que muitas pessoas escolhem serem professores do ensino elementar porque não querem ensinar ciência ou matemática no ensino médio.”

Eugene A. Geist, professor associado na Ohio University, em Athens e autor do livro de 2001 “Children Are Born Mathematicians”, trabalha com professores para criar “classes livres de ansiedade” para os estudantes. Ele aconselha os professores a fazerem os estudantes prestar atenção no processo de aprender matemática em vez de dependerem das respostas num livro de texto, o que pode diminuir a confiança deles e dos professores em suas habilidades matemáticas.

“Se eu dou a resposta, você imediatamente esquece a questão. Se eu não lhe dou a resposta, você ainda terá dúvidas e estará pensando no problema muito tempo depois”, ele disse.

Por contraste, constantemente referir-se a uma resposta pode minar a confiança tanto dos alunos quanto dos professores em sua habilidade matemática, e encorajar os estudantes a estar certos em vez de estar aprendendo.

Do mesmo modo, Dr. Willis, neurologista californiana, disse que os professores podem ajudar os alunos a reduzir seu medo de participar durante as discussões de matemática, pedindo a todos os alunos que respondam cada pergunta usando papel rascunho ou pranchetas eletrônicas, para tentar chegar às respostas e, então, falando sobre os problemas como um grupo.

“Ajuda no tempo de espera (entre a pergunta e a resposta), aumenta a participação, e diminui o medo de errar,” disse Dr. Willis. A chave para ajudar os estudantes a aprender a não temer a matemática, ela disse, “é fazer os estudantes exporem o conhecimento fundamental defeituoso, o que eles podem fazer somente se cometerem erros e participarem”.

http://www.edweek.org/

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