"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

190- TDAH - Uma palavrinha para as esposas


Ellen Kingsley - ADDitude fev 2012

Estratégias de sobrevivência para as esposas de maridos com TDAH que parecem as ignorar, esquecer ou desrespeitar... mas que talvez não tenham essa intenção.
Quando Jéssica viu Josh, foi amor à primeira vista. Ele era amável, alegre e disposto, sem dizer que era bonito e atlético. Quando ele lhe falou sobre seu TDAH, isto não a intimidou. “Ele estava indo muito bem na faculdade de direito”, ela conta. “Seu TDAH não parecia ter muito impacto sobre ele ou sobre o que ele fazia”. Mas Jéssica logo sentiria o impacto do TDAH no seu casamento. Isto foi por causa do estilo de vida que Josh adotou para dar conta do TDAH, estilo que consistia em estar sempre muito organizado e que criava uma estrutura muito rígida para sua vida. Do seu computador de mesa até a sua gaveta de meias, tudo tinha de estar em ordem e no lugar. “Ele tinha de ter as chaves num lugar certo”, conta Jéssica. “Se ele as perdesse, ficava louco”. Ele também era assim com sua conta bancária. “Antes do início de cada mês, tudo tinha de ser planejado e calculado. Eu tinha de saber exatamente quanto tinha de gastar e no quê a cada mês. Se não fosse assim, ele ficava ansioso e transtornado”.
Jéssica, de trinta e poucos anos, uma profissional acostumada com sua independência, achou esta questão do dinheiro especialmente difícil de aceitar. “Se algo acontecia e nos desviava do rumo, ele não conseguia dar conta”, ela diz. “Chegou ao ponto de se eu sofresse uma multa de trânsito de 50 dólares, ficava com medo de contar a ele”.
Se alguma coisa não mudasse, seu casamento estaria em perigo. Assim diz Lynn Weis, Ph.D., uma psicóloga clínica e especialista nos relacionamentos TDAH. “As mulheres geralmente acham que os rapazes TDAH são ótimos para namorar porque eles são ativos, companhias divertidas, alegres e dispostos”, diz Weiss. “Mas quando você tem de administrar um lar e uma vida movimentada, é outra história completamente diferente”.
“A diferença entre homens e mulheres são exacerbadas quando um homem tem TDAH”, diz Weiss. Se você concorda com a premissa de Weiss, de que as mulheres tendem a pessoalizar mais frequentemente, e de que os homens tendem a ser mais desligados emocionalmente, você pode entender o que ela quer dizer. Se o esposo age de certo modo, que parece dizer do seu desligamento (digamos, esquecer o tempo e chegar atrasado para encontrar a mulher no cinema) ela poderá sentir que ele não liga muito para ela. Quando o TDAH está envolvido, tais cenários acontecem mais frequentemente.
Lidando com o cenário “an-han”
A mulher diz, “Querido, você pode levar o lixo para fora?” e o marido TDAH responde “An-han”. Três horas mais tarde, o lixo ainda está lá dentro. A mulher pessoaliza: “Ele está sendo oposicionista”, ou “Ele nunca me ouve”, e isso a torna zangada. Começa uma briga. Será a primeira de muitas.
Segundo Weiss, “Esposas de homens TDAH precisam entender que o nível de atenção dos maridos para as tarefas é extremamente baixo”. “Ele não está agindo assim de propósito. Mas quando ela começa a pessoalizar seu comportamento, o casamento fica em perigo”.
Para sair desta situação de armadilha an-han, primeiro a esposa tem de entender que o problema é: dificuldade de prestar atenção e de se fixar na tarefa é o maior dos problemas do TDAH. Aceitando este fato da vida, ela precisa, então, ajustar seu pedido de um jeito que penetre num nível mais profundo da atenção dele, para que haja efeito. Weiss sugere uma estratégia de quatro passos:
Toque seu marido quando fizer o pedido. Pessoas com TDAH recebem informação mais facilmente e mais eficazmente quando vários sentidos são estimulados.
Faça contato com seu marido pelo olhar e mantenha-o atraído por meio da conversa. Diga a ele, “Obrigada, eu realmente gosto quando você cuida do lixo”. Espere a resposta dele.
Dê um limite de tempo para ele. Diga, “Eu me sentiria melhor se você retirasse o lixo até às 3 da tarde”. (Note o uso positivo da linguagem). Pergunte a ele o que ele acha disso.
Se for preciso, lembre-o novamente. Ele pode precisar de você para isso.
Weiss nota que muitas mulheres recusam este conselho; dizem que seria mais fácil elas mesmas retirarem o lixo ou que essas interações estudadas são “como educar outro filho”. Grande erro.
“Se a estratégia é elaborada de um modo condescendente, haverá problemas secundários”, diz Weiss. “A mulher tem de entender que se ela acha que prestar atenção ou organização ou dar prosseguimento são comportamentos mais maduros, o casamento sofrerá.”
Em resumo, não julgue moralmente o comportamento TDAH do seu marido. Seja responsável pela sua parte da equação. Ele é o homem que você amou o bastante para se casar. Você deve a ambos o aprendizado sobre  o TDAH e o desenvolvimento de mecanismos para viverem juntos.
O cenário controlador
A descrição de Jéssica das “loucuras” do seu marido sobre as chaves fora do lugar e dos itens fora do orçamento fala sobre sua intensa ansiedade com a perda de controle do seu mundo. Pessoas com TDAH, cuja habilidade interna em permanecer organizadas e no controle do seu universo pode estar faltando, geralmente se ajustam por meio da criação de um ambiente altamente estruturado para elas mesmas.
“Elas acham de verdade que, se perderem alguma coisa, tudo desabará”, diz Weiss. E os que não têm TDAH têm de respeitar isto.
Então, novamente, um casamento consiste de duas pessoas que precisam trabalhar junto como um time. Algumas dicas úteis:
Para ela: Não mexa nas coisas dele. Cada esposo deve ter áreas separadas para o trabalho ou para os itens pessoais. Se incomoda ao parceiro ter suas coisas rearrumadas ou perder de alguma forma o controle delas, então tente não tocar nelas. “Ela realmente não deve estar na mesa dele”, diz Weiss.
Para ele: Seja dono do seu comportamento. É preciso saber que seu controle exagerado e seus hábitos superestruturados  são compensatórios e que agir com raiva não é “legal” ou aceitável. Ajuda desenvolver um senso de humor autocrítico sobre isso também (por exemplo, “Se eu não tivesse minha cabeça grudada no pescoço, provavelmente eu já a teria perdido”). Os tipos supercontroladores podem ser de difícil convivência, mas o instinto pessoal e o bom humor farão sua mulher se sentir bem melhor.
Comentários dos leitores:
Sarafina Carter – Já estou cansada de ver os cenários dos relacionamentos TDAH envolvendo somente a mulher não TDAH, especialmente em fóruns de especialistas como este! – Mulheres também têm TDAH, vocês sabem (e as últimas teorias reconhecem que isso tem a mesma proporção que os homens; ele, o TDAH é menos diagnosticado nas mulheres!)
Blue Gal – Exatamente Sarafina. E a aceitação de que aos homens é permitido controlar as mulheres, enquanto a mulher deve ter certeza de não pessoalizar o comportamento controlador do seu marido? Um homem com TDAH e TOC, que perde a razão por causa de um gasto inesperado (e, convenhamos, em que mês isto não ocorre?) precisa de aconselhamento conjugal e treinamento para o controle da raiva. E ele terá sorte se o seu casamento sobreviver a esta espécie de absurdo. O artigo não vai muito fundo para mostrar como os homens precisam dominar seu comportamento.
Twalden – em vez de falar sobre como seu marido TDAH está fazendo isso e aquilo, por que não aprender sobre isso o mais possível? Se você não aprender, ficará presa a muitas situações que não saberá como manejar. Se eu soubesse que tinha TDAH quando me casei, seria capaz de pedir ajuda. Fui só recentemente diagnosticado, entretanto eu sabia que era TDAH durante anos. Meus médicos me diziam apenas que eu tinha transtorno de ansiedade generalizada, não TDAH. A terapia também é útil para alguém com TDAH, e o humor ajuda. Entretanto, se você fizer um tratamento de terapia cognitiva comportamental, on-line ou pessoalmente, ele definitivamente vai lhe ensinar como controlar o TDAH. Ele não é uma doença, é um transtorno e você pode também acionar o seguro social de invalidez por causa dele, se o seu psicólogo apresentar as provas suficientes, após os testes. Estes são feitos basicamente on-line e são de 300 a 500 perguntas, e são acurados. Eu desejo a você a melhor sorte com tudo, não desista do seu esposo por causa de um transtorno que não é culpa dele. Algumas pessoas eventualmente vão embora, e outras ficam por toda a vida. Então, se você ama de verdade o seu marido, a despeito do TDAH dele, você precisa aprender como ter paciência e o que afinal é o TDAH. Outra coisa: precisamos aceitar as mágoas dos outros, seus mau-humores  e hábitos, especialmente se os amamos, apesar de todo o resto. Amor incondicional é isto, incondicional.

Nenhum comentário:

Postar um comentário