"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

259- Como os meninos com TDAH se relacionam com novos colegas


 
Problemas de relacionamento com colegas são consistentemente encontrados como sinal de resultados negativos no desenvolvimento. Crianças rejeitadas (particularmente as que agem agressivamente com os colegas) se saem significativamente pior na adolescência e na vida adulta do que crianças com relações de amizade mais harmoniosas. Isso pode ocorrer porque as crianças rejeitadas geralmente gravitam uma em torno da outra durante a adolescência e reforçam ou pioram o comportamento antissocial uma da outra. A rejeição pelos colegas também pode ter um efeito negativo na autoestima das crianças e contribuir para o desenvolvimento de solidão e depressão.

Infelizmente, muitas crianças com TDAH têm dificuldade em suas relações com colegas e geralmente se tornam não queridas ou rejeitadas pelas outras depois de alguns poucos contatos. Por que isso ocorre? O que elas fazem de errado quando tentam negociar a importante tarefa social de se unir a um novo grupo social? Há diferenças importantes em como elas tentam se integrar com os novos colegas sem TDAH? Essa foi uma questão interessante pesquisada em um estudo publicado há dois anos no Journal of Abnormal Child Psychology [Ronk et al,. (2011). Avaliação da competência social de meninos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: Aceitação problemática pelos colegas, respostas e avaliações dos anfitriões. Journal of Abnormal Child Psychology, 39, 829-840.]

Ser capaz de se juntar com sucesso a novos colegas é um importante primeiro passo para desenvolver relações positivas de amizade. Todos nós tivemos a experiência de tentar se juntar a outros que ainda não conhecemos, mas que já eram amigos entre si. É uma tarefa desafiadora e requer a habilidade de usar comportamentos verbais e não verbais. É uma tarefa importante porque se unir com sucesso a um novo grupo dá às crianças a oportunidade de desenvolver novos amigos; crianças que consistentemente têm dificuldade de enfrentar o processo de entrada no grupo têm menos oportunidades subsequentes para interações positivas.

Quais os tipos de comportamento associados à entrada competente no grupo? Pesquisas anteriores sugerem que as crianças socialmente competentes empregam um espectro de comportamentos de entrada que vão do baixo risco ao alto risco. Comportamentos de baixo risco são os que têm menor probabilidade de provocar reações positivas ou negativas dos colegas aos quais uma criança esteja tentando se unir.
Por exemplo, uma estratégia de baixo risco seria ficar por perto de colegas que estejam brincando juntos e somente observar sua atividade. Usando essa abordagem, a criança poderia gradualmente ter uma noção de quais sejam as atividades e as normas do grupo, e eventualmente comentar sobre o que acontecia, por exemplo, “parece um jogo divertido – vocês se importam se eu ficar olhando um pouco?”. Com esse tipo de ação, a criança competente age para gradualmente misturar-se ao grupo.
Crianças socialmente menos competentes nunca vão além do estágio de ficar observando, ou se envolvem em estratégias de alto risco, que podem produzir reações positivas ou negativas. Isso inclui comentários e perguntas que tirem a atenção dos colegas do que eles estão fazendo e chamem a atenção sobre si mesmo. Crianças menos habilidosas têm dificuldade de casar sua atividade com a escala de referência do grupo e de se unir de modo não incomodativo.
O foco desse estudo foi observar como os meninos com e sem TDAH lidavam com a admissão ao grupo de colegas. Os participantes foram 1.477 meninos de 12 anos de idade recrutados de vários locais da comunidade. Quarenta e nove serviram de “indivíduos de entrada”, isto é, os meninos que tinham de tentar entrar para o grupo. Vinte e seis deles tinham TDAH e vinte e três não. Todos os meninos com TDAH preenchiam os critérios para os subtipos combinado ou hiperativo/impulsivo; meninos com somente os sintomas de desatenção não foram incluídos. O restante dos meninos – nenhum dos quais tinha TDAH – era do grupo anfitrião, isto é, colegas aos quais os “meninos de entrada” teriam de se unir.
O paradigma experimental foi o seguinte: meninos eram levados ao laboratório em grupos de 3. Dois meninos – anfitriões – já eram amigos um do outro, e o “menino de entrada” não conhecia nenhum deles. Os anfitriões eram levados a uma sala e instruídos a brincar com um dos vários jogos até que o pesquisador voltasse. Minutos mais tarde, a “criança de entrada” era trazida sem ter recebido nenhuma instrução específica sobre o que fazer. Desse ponto em diante, as interações das crianças eram filmadas. Depois de vários minutos, a “criança de entrada” era retirada pelo pesquisador. A criança era trazida novamente um pouco mais tarde para que fosse observada uma segunda tentativa de entrada. Todo o procedimento levava cerca de uma hora.
Meninos com TDAH que estavam medicados não tomavam a medicação no dia do estudo; isso permitia que seu comportamento não medicado fosse observado.
Codificando o comportamento de entrada dos meninos.
Vídeos das interações foram codificados para captar as tentativas de entradas dos meninos e as reações dos anfitriões às tentativas.
Os códigos para os comportamentos de entrada competentes das crianças eram:
Esperar e andar – aproximando-se dos anfitriões e observando seu comportamento sem falar.

Comportamento sincronizado – aproximando-se dos anfitriões e imitando o que eles estavam fazendo sem falar ou brincar com eles.

Declaração dirigida ao grupo – uma declaração verbal relevante dirigida diretamente aos anfitriões ou sobre a brincadeira.

Pergunta – uma pergunta relevante dirigida aos anfitriões.

Comportamentos considerados como reflexos de entrada incompetente eram:

Declaração pessoal – uma declaração descrevendo-se a si mesmo, que não era relacionada com a atividade corrente dos anfitriões.

Chamar a atenção – um comportamento verbal ou não verbal com a intenção de chamar a atenção dos anfitriões.

Interferência – um comportamento verbal ou não verbal aversivo.

Autoelogio – fazer declarações descrevendo habilidades próprias.

Codificando os comportamentos dos anfitriões

O comportamento dos anfitriões em relação às “crianças de entrada” foi codificado como segue:

Iniciação – comportamento não solicitado convidando a “criança de entrada” para brincar.

Positivo – resposta à “criança de entrada” que fosse positiva ou neutra.

Negativo – resposta à “criança de entrada” que fosse de rejeição ou desfavorável.

Ignorar – nenhuma resposta de aceitação da “criança de entrada”.

Os codificadores também classificaram quão bem a “criança de entrada” parecia se relacionar com os anfitriões, assim como a habilidade da criança em manter o padrão de referência do grupo, isto é, se adequar ao jeito de falar e ao comportamento do grupo nas atividades correntes.

RESULTADOS

Comportamento da “criança de entrada”

Comportamento de entrada competente – nenhuma diferença foi encontrada na quantidade de comportamento de entrada que os meninos com e sem TDAH mostraram.

Comportamento de entrada incompetente – Meninos com TDAH mostraram mais comportamento de chamar a atenção, mais comportamento perturbador, mais comentários pessoais e mais autoelogios. Diferenças nesses comportamentos entre meninos com e sem TDAH foram geralmente grandes em magnitude. Meninos com TDAH também foram classificados como menos hábeis para manter o padrão do grupo, e suas tentativas de conversação foram julgadas menos relevantes para a atividade corrente.

Comportamento favorável dos anfitriões e pontos da “criança de entrada”.

Meninos com TDAH receberam menos respostas para entrada do que os meninos de comparação. Embora não houvesse nenhuma diferença de grupo nas respostas negativas dos anfitriões durante o primeiro episódio de entrada, meninos com TDAH tenderam a receber mais reações negativas no segundo episódio. De modo semelhante, meninos com TDAH não eram menos queridos pelos anfitriões depois do primeiro episódio de entrada, mas eram menos queridos depois do segundo episódio.

RESUMO E IMPLICAÇÕES

Os resultados desse estudo indicam claramente que meninos com TDAH são menos hábeis do que os outros na importante tarefa social de se juntar a colegas não conhecidos. Como tal, eles têm menos oportunidades de desenvolver relacionamentos novos e positivos do que os outros.

Foi notável que, no segundo episódio de entrada, meninos com TDAH já haviam se tornado menos queridos pelos outros meninos. Isso não parece relacionado com a ausência de comportamento competente de entrada; de fato, eles mostraram tantos comportamentos competentes como os outros. Na verdade, isso é mais bem explicado pelos graus significativamente mais altos de comportamentos incompetentes que eles exibem. Isso incluía mais declarações para chamar a atenção, mais autoelogios, mais comportamento de chamar a atenção e mais comportamento perturbador. Em vez de dominar a situação, mantendo o padrão de referência e silenciosamente se misturar, eles tendem a se intrometer nas atividades dos anfitriões de um jeito que os colegas não gostam. Assim, a entrada no grupo de colegas é provavelmente um aspecto da interação social habilidosa em que os meninos com TDAH precisam de ajuda.

Como os meninos não estavam medicados durante o estudo, seria interessante saber se taxas elevadas de comportamento incompetente seriam significativamente reduzidas pela medicação. É possível, mas não se sabe. Seria também interessante saber se as dificuldades de entrada exibidas pelos meninos com TDAH seriam da mesma forma exibidas pelas meninas com TDAH. Meninas com TDAH podem não mostrar déficits comparáveis, ou, podem mostrar padrão diferente de comportamento de entrada incompetente.

Essas questões, junto com os esforços de melhorar o comportamento de entrada no grupo de colegas de meninos com TDAH, seriam todas interessantes para se verificar em pesquisa subsequente.

Novamente, obrigado por seu interesse continuado em nosso boletim. Espero que você tenha apreciado o artigo acima e o achado útil. Sinceramente,

David Rabiner, Ph.D. – Research Professor, Dept. of Psychology & Neuroscience, Duke University, Durham, NC 27708 - USA