"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

quarta-feira, 3 de abril de 2013

275- O Mau Uso e o Abuso de Medicamentos Para o TDAH – Uma Revisão Atualizada


O Mau Uso e o Abuso de Medicamentos Para o TDAH – Uma Revisão Atualizada. Por David Rabiner, Ph.D.
O mau uso e o abuso de medicamentos receitados é uma preocupação crescente. Lembro-me de falar com colegas médicos há 15 ou 20 anos atrás, quando os relatos sobre o uso não médico de medicamentos estimulantes utilizados no tratamento do TDAH estavam começando a aparecer na mídia (o uso não médico é definido como o uso por indivíduos sem a receita médica). Naquele tempo, pensava-se que eram incidentes isolados que estavam sendo superdramatizados pela imprensa.

Entretanto, tornou-se claro que esse não é o caso atualmente e que o uso não médico de medicamentos para o TDAH, assim como o mau uso pelos indivíduos aos quais o medicamento foi receitado, é um problema importante. A seguir, uma breve revisão e resumo da pesquisa sobre estes assuntos.
O quanto é comum o uso não médico de medicamentos estimulantes?
Entre 2000 e 2011, a prevalência anual do uso não médico de anfetaminas – que inclui drogas usadas para tratar TDAH, mas não se limita aos medicamentos para o TDAH – declinou de 6,5% para 3,5% entre os alunos do oitavo grau, de 11,7% para 6,6% para os do décimo grau, e de 10,5% para 8,2% para os do décimo segundo grau. Entre os estudantes de faculdade, entretanto, a taxa cresceu de 6,6% para 9,3%. Para os adultos fora da faculdade, com idades de 19 a 28 anos, a taxa também cresceu – de 5,4% para 7,2%. Esses dados são do Monitoring the Future Study, uma avaliação anual do uso de drogas e de álcool, conduzida com uma amostra nacionalmente representativa. Você pode achar os resultados da avaliação de 2011 online em www.monitoringthefuture.org/pubs/monographs/mtfoverview2001.pdf
Esses dados podem subestimar o uso não médico de estimulantes para o TDAH porque a avaliação do MTF não perguntou sobre todos os medicamentos amplamente receitados e os indivíduos que usavam medicamentos não mencionados podem inadvertidamente deixar de mencionar o uso não médico.
Com que frequência os indivíduos fazem o uso não médico?
A pesquisa publicada sobre a frequência do uso não médico focalizou os estudantes de faculdade. Os resultados obtidos das bases de dados representativas nacionais de estudantes de faculdade indicam que 32% de usuários não médicos usaram somente uma vez no ano anterior, 45% usaram de 2 a 10 vezes, e 19% usaram mais de 11 a 15 vezes. Em um estudo na população em geral, 30% dos usuários não médicos disseram ter usado somente de 1 a 2 vezes por ano, enquanto 70% disseram ter usado 3 ou mais vezes.
Embora a maioria dos indivíduos que fizeram uso não médico usou somente a via oral de administração, relatos de amassamento e aspiração não são incomuns. De fato, isso foi relatado por aproximadamente 20% dos usuários não médicos em um estudo recentemente publicado sobre estudantes universitários.
Onde conseguem medicamentos os que não têm receita?
A grande maioria dos usuários não médicos entre os estudantes de faculdade obtém medicação de um amigo com receita. Os resultados de vários estudos indicam que os estudantes com receitas são geralmente abordados por colegas solicitando seus medicamentos. Pesquisa com estudantes da escola média e do colegial torna claro que os estudantes mais jovens são também abordados por causa dos seus medicamentos, embora no que pareça ser uma taxa menor do que para os estudantes de faculdade.
Fingir TDAH para obter medicação é também uma preocupação crescente. Estudos com estudantes universitários sugerem que muitos que se encaminham para uma avaliação sobre TDAH exageram seus sintomas, talvez para obter a medicação estimulante. Em um estudo com adultos não universitários, 20% dos que fizeram uso não médico relataram que fingiram TDAH para obter uma receito do médico.
Quais são as características dos usuários não médicos de medicamentos para o TDAH?
Reportagens na imprensa popular algumas vezes implicam que tomar medicação para o TDAH sem uma receita médica tornou-se um comportamento quase normal entre os estudantes universitários, parte de um estilo de vida “trabalhe duro, divirta-se a valer”. Entretanto, a pesquisa não confirma essa visão.
Múltiplos estudos conduzidos com populações de universitários indicam que comparados a seus colegas, os usuários não médicos:
têm taxas mais altas de uso de drogas e de álcool.
têm desempenho acadêmico inferior.
• relatam significativamente mais problemas com atenção.
Taxas mais altas de uso de substâncias também foram encontradas entre os usuários não médicos de medicamentos para o TDAH na população adulta em geral.
Assim, mesmo não sendo o comportamento normal, parece que muitos indivíduos que aderem ao uso não médico também fazem mau uso de outras substâncias e, ou, sentem que os problemas de atenção estão prejudicando sua capacidade para ter sucesso.
Quais são as principais motivações para o uso não médico dos medicamentos para o TDAH?
A maioria das pesquisas sobre os motivos para o uso não médico foi conduzida com estudantes universitários. Entre os estudantes, a principal motivação para os usuários não médicos é o aumento do desempenho acadêmico, especialmente a capacidade de prestar atenção e focar enquanto está estudando. Entretanto, outros motivos também são relatados por uma minoria significativa de indivíduos, incluindo o “para ficar ligadão”.
Quais são as consequências do uso não médico da medicação para o TDAH?
A vasta maioria dos estudantes universitários que se envolveram com o uso não médico para aumentar seu desempenho acadêmico acredita que isso seja útil. Em um estudo, 70%  classificou o impacto geral do uso não médico como sendo “positivo” ou “muito positivo”  e somente 5% classificou o impacto geral como “negativo” ou “muito negativo”.
Isso é surpreendente porque não há nenhum dado que indique que o uso não médico realmente melhore o desempenho acadêmico. Uma revisão recente concluiu que “... os efeitos cognitivos de estimulantes em adultos sadios não podem ainda ser caracterizados definitivamente...”.
Além disso, a maioria dos trabalhos sobre esse assunto é conduzida em situação de laboratório e examina o impacto da medicação estimulante em pesquisa de medidas do desempenho cognitivo. Não se sabe se tomar estimulantes para varar a noite estudando melhora o desempenho no exame no dia seguinte. De fato, uma hipótese plausível é que os estudantes, que atrasam os estudos porque acham que os estimulantes os ajudarão a aprender na noite anterior, terão desempenho pior do que se tivessem se preparado usando uma estratégia mais razoável.
Consequências adversas
Efeitos colaterais – Embora muitos estudantes no estudo mencionado acima relataram efeitos gerais positivos do uso não médico, os efeitos adversos também foram frequentemente relatados. Esses incluíam dificuldades de sono  (relatadas por 72%), irritabilidade (62%), tonturas e sensação de cabeça oca (35%), cefaleias (33%), dor no estômago (33%) e tristeza (25%).
Além disso, cerca de 5% acreditam que o uso não médico tenha contribuído para seu uso de outras medicações e de drogas ilícitas. Aproximadamente 10% relataram preocupações ocasionais sobre a obtenção da medicação estimulante e sobre tornar-se dependente dela. Acima de 10% acreditavam que precisavam de estimulantes para melhorar seu desempenho acadêmico. Essa não parece ser uma boa opinião para se ter.
Abuso e dependência – O abuso potencial de estimulantes quando feito por indivíduos sem TDAH foi documentado em vários estudos, embora isso seja reduzido com as formulações de longa-ação. Embora seja limitada a informação de quão frequentemente o uso não médico de estimulantes para o TDAH preencha os critérios para abuso de estimulantes ou para a dependência, dados do 2002 National Survey on Drug Use and Health mostrou que aproximadamente 5% dos indivíduos que relataram uso de medicação para TDAH no ano anterior atingiam os critérios de triagem para essas desordens.
Reações adversas – Entre 2005 e 2010 o número de visitas ao departamento de emergência resultante de uso não médico de drogas estimulantes aproximadamente triplicou, de 5.212 para 15.585. O número de visitas ao departamento de emergência relacionado a reações adversas a estimulantes para TDAH receitados praticamente dobrou, de 5.085 visitas para 9.181 visitas.
Trinta e sete por cento de todas as visitas ao departamento de emergência relacionadas a medicação estimulante envolviam medicamentos exclusivamente estimulantes; o restante envolvia o uso de combinações com outras drogas – frequentemente outros medicamentos farmacêuticos – e álcool.
E sobre o mau uso e uso recreativo de medicação receitada?
O mau uso de medicação estimulante pelos que têm uma receita também é uma preocupação.
Embora a maior parte dos indivíduos use seus medicamentos estimulantes de maneira correta, o uso de modo que se desvia do previsto pelo médico que deu a receita não é incomum. Isso geralmente assume a forma de tomar o medicamento em doses mais altas ou mais frequentemente do que o receitado, o que tem sido relatado por entre 27% e 36% dos estudantes universitários em vários estudos. Entretanto, até 25% dos estudantes universitários relatam o uso de medicamentos para o TDAH para se sentirem mais “ligados” e até 30% têm relatado o uso em conjunto com álcool e/ou outras drogas.
Semelhante ao que foi encontrado para os usuários não médicos, o melhor desempenho acadêmico foi o motivo mais frequentemente citado e a maioria dos estudantes universitários que o fazem por esse propósito sentem que foi útil. Razões não acadêmicas para o mal uso, isto é, para se sentir melhor ou para emagrecer, foram relatadas como frequentes para o mal uso por relativamente pouso estudantes. Dados sobre os motivos para o mal uso de medicamentos receitados fora das amostras universitárias são limitados.
Como foi notado acima, o uso recreativo de medicação estimulante receitada é um problema significativo. Em estudos de estudantes universitários, doar ou vender medicamentos para os colegas foi relatado por 26% nos primeiros seis meses, 35% nos primeiros doze meses, e por 62% durante todo o curso. O desvio da medicação estimulante receitada – geralmente para amigos e parentes – também foi relatado por uma minoria significativa de adultos não universitários.
Conclusões
Preocupações  a respeito do uso não médico de drogas estimulantes para tratar o TDAH são confirmadas, com aproximadamente 10% dos estudantes universitários relatando isso em uma recente pesquisa de âmbito nacional; em alguns estudos, as taxas são ainda mais elevadas.
Embora o uso relativamente infrequente seja o mais comum, talvez 20% dos usuários “não médicos” o façam regularmente e se envolvem com o uso por via intranasal de administração. Grosseiramente, 5% dos usuários podem preencher os requisitos para abuso de estimulantes ou dependência de estimulantes, e visitas ao departamento de emergência associadas ao uso não médico estão aumentando.
Além do uso não médico, muitos indivíduos com receitas de medicamentos para o TDAH ocasionalmente fazem mau uso de sua medicação, tomando-a em doses mais altas ou com maior frequência do que a receitada; alguns fazem uso intranasal para ficarem “ligados” e em conjunto com outras drogas ou bebidas alcoólicas. Do mesmo modo que com o uso não médico, isso está associado a taxas mais altas de uso de outras substâncias. Medicação desviada para amigos e membros da família não é fato incomum e muitos são abordados para isso, colocando-os em risco repetido de se engajar em comportamento ilegal.
Para solucionar esses problemas, os médicos devem instruir seus pacientes sobre o abuso potencial de seus medicamentos, a necessidade de guardá-los em local seguro, e obter um compromisso de não doá-los a ninguém. As crianças e adolescentes podem precisar de tutoramento sobre como responder se abordadas por colegas pedindo sua medicação.
As faculdades devem considerar a revisão de suas polícias de conduta para controlar o mau uso e o desvio de medicação para o TDAH, propiciar aos estudantes locais seguros de guarda dos remédios e educar os alunos sobre os perigos em potencial associados ao uso não médico, especialmente quando usados com álcool e outras substâncias.
Referências – As informações fornecidas foram retiradas das seguintes fontes, entre outras:
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Sincerely, David Rabiner, Ph.D. Research Professor - Dept. of Psychology & Neuroscience - Duke University Durham, NC 27708