"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

318- Por que nós, com TDAH, agimos assim: Entendendo o comportamento TDAH.


Por William Dodson, M.D. 

Explicações para a compreensão dos nossos pensamentos e comportamentos - desde a preferência pela companhia de amigos TDAH até o hiperfoco durante toda a noite, e a duvidar de nossa capacidade de agir quando os outros querem nossa ação.

A vida dos TDAHs
A maioria dos TDAHs sempre soube que eles são diferentes. Os pais, professores, patrões e os amigos sempre disseram que eles não se ajustavam ao modelo normal. Disseram para que eles aprendessem e se tornassem iguais às outras pessoas. O principal obstáculo para entender o TDAH é a crença de que os TDAHs podem e devem ser como o resto das pessoas. Para os "normais" e para os TDAHs, aqui vai uma explicação do porquê dos TDAHs fazerem o que fazem.

Por que não nos damos bem em um mundo linear?
O mundo TDAH é curvo. Passado, presente e futuro nunca são separados e distintos. Tudo é agora. Os TDAHs vivem um presente permanente e têm muita dificuldade de aprender do passado ou de olhar para o futuro para ver as consequências de seus atos. "Agir sem pensar" é a definição de impulsividade, e uma das razões por que os TDAHs têm dificuldade de aprender pela experiência.

Problemas de A a Z
Os TDAHs não são bons em organização - planejar e fazer as etapas de uma tarefa em ordem certa. Trabalhos no mundo neurotípico ["normal"] têm um começo, um meio e um fim. Os TDAHs não sabem onde e como começar, porque não conseguem achar o início. Eles vão para o meio de uma tarefa e agem em todas as direções ao mesmo tempo. A organização se torna uma tarefa insustentável porque os sistemas organizacionais trabalham com linearidade, importância e tempo.

Por que ficamos oprimidos?
Os TDAHs sentem a vida de modo mais intenso do que os outros. O sistema nervoso do TDAH quer se envolver com algo interessante e desafiador. Atenção nunca é um déficit. Ela é sempre excessiva, constantemente ocupada com envolvimentos internos. Quando os TDAHs não estão na zona de conforto, no hiperfoco, eles têm muitas coisas rondando suas mentes, todas ao mesmo tempo, e por nenhuma razão aparente, como cinco pessoas falando entre si ao mesmo tempo. Nada consegue atenção sustentada e não dividida. Nada fica bem feito.

Por que sentimos o mundo todo?
Muitos TDAHs não conseguem selecionar os estímulos sensoriais. Às vezes isso está relacionado somente a um reino sensorial, como a audição. De fato, o fenômeno é chamado de hiperacusia (audição amplificada), mesmo quando a atrapalhação vem de um dos cinco outros sentidos. Por exemplo, o menor barulho na casa impede que pegue no sono. Os TDAHs têm seus mundos constantemente perturbados por sensações que os neurotípicos não percebem.

Por que gostamos de uma crise?
Às vezes, um TDAH pode atingir o limite de um prazo e produzir muito trabalho em pouco tempo. Os "mestres do desastre" podem lidar facilmente com a crise e perder o controle quando as coisas voltam a ser rotina. Balançando de crise em crise, entretanto, é uma dura maneira de viver a vida. Alguns portadores de TDAH usam a raiva para ter a descarga de adrenalina que precisam para serem produtivos. O preço que pagam por sua produtividade é tão alto que eles podem ser considerados como portadores de transtornos de personalidade.

Por que nem sempre terminamos as coisas?
Os portadores de TDAH  são iludidos e frustrados por sua intermitente habilidade de serem super-homens quando interessados, e desafiados e incapazes de iniciar e manter projetos que os aborreçam. Nunca estão confiantes de que podem se engajar quando for necessário, quando os outros esperam que o façam, quando os outros dependem de que o façam. Quando os portadores de TDAH se vêm como independentes, eles começam a duvidar de seus talentos e a sentir vergonha de não serem confiáveis.

Por que nossos motores estão sempre ligados?
Quando a maioria dos portadores de TDAH fica adolescente, sua hiperatividade se esconde. Mas ela está lá e ainda prejudica a capacidade de se ligar no ato, de ouvir as pessoas e de relaxar o suficiente para dormir. Mesmo quando tomam suas medicações, podem não ser capazes de fazer uso de seu estado acalmado. Ainda são acelerados. Na adolescência, muitos portadores de TDAH já adquiriram as habilidades sociais necessárias para disfarçar que eles não estão ligados no aqui e agora.

Por que a organização nos confunde?
A mente do TDAH é uma enorme e desorganizada biblioteca. Ela contém vasta quantidade de informação, em pedaços, não em livros completos. A informação existe em muitas formas - como artigos, vídeos, audioclipes, páginas da internet. Mas não há cartões de catalogação. Cada portador de TDAH tem sua própria maneira de guardar essa enorme quantidade de material. Itens importantes (Deus nos acuda, importantes para mais alguém) não têm nenhum lugar fixo, e podem muito bem estarem invisíveis ou completamente perdidos.

Por que podemos nos esquecer?
Para o portador de TDAH, a informação e as memórias que estiverem fora da vista estarão fora da mente. Sua mente é uma memória RAM de computador, sem nenhum acesso confiável à informação no disco rígido. A mente do TDAH está cheia de minúcias da vida ("Onde estão minhas chaves?"), então, há pouco lugar para novos pensamentos e memórias. Algo tem de ser descartado ou esquecido para dar lugar a informação nova. Geralmente a informação de que os portadores de TDAH precisam está em sua memória, mas não está disponível quando solicitada.

Por que não nos vemos claramente?
Os portadores de TDAH têm pouca autopercepção. Enquanto podem frequentemente entender bem os outros, para a média dos TDAHs é difícil saber, de momento a momento, como eles mesmos estão se saindo. Os neurotípicos interpretam isso de modo errado, como sendo insensibilidade, narcisismo, descuido ou inaptidão social. A vulnerabilidade dos TDAHs ao feedback negativo dos outros e a falta de habilidade de se avaliar no momento, pioram as coisas.

Por que somos desafiados pelo tempo?
Como os portadores de TDAH não têm uma avaliação real do tempo, tudo acontece agora ou nunca. Junto ao conceito de ordenação (o que deve ser feito em primeiro lugar; o que vem em segundo lugar) também deve haver o conceito de tempo. Oitenta e cinco por cento dos meus pacientes com TDAH não têm ou não usam um relógio de pulso. Para os TDAHs, o tempo é uma abstração sem significado. Ele é importante para as outras pessoas, mas os TDAHs nunca têm noção dele.


ADDitude

2 comentários:

  1. Simplesmente genial as colocações do texto, essas questões são cruciais principalmente para quem convive com um TDAH, coisas que eu não consigo explicar de forma rápida e direta. Gostei demais do texto, peço permissão para publicar em meu blog conservando a fonte e autoria!
    Obrigada!

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  2. "A mente do TDAH está cheia de minúcias da vida ("Onde estão minhas chaves?"), então, há pouco lugar para novos pensamentos e memórias." Se eu tiver algum gerenciador para estas minúcias da vida, conseguiria administrar meus pensamentos mais facilmente?

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