"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

sábado, 8 de fevereiro de 2014

324- Os Efeitos Colaterais Podem Incluir: Humilhação, Julgamento e Estigma - TDAH e "drogas"


Dois recentes encontros na farmácia me convenceram: Se você não pode gritar "Fogo!" em um teatro lotado, você não deveria gritar "Droga" quando eu peço remédio para o TDAH.

Por Samantha Hines

O Merriam-Webster Dictionary define a palavra droga como "uma substância (como cocaína, heroína ou maconha) que afeta o cérebro e geralmente é perigosa e ilegal". Se você é pai de uma criança com TDAH, que, depois de consultas minuciosas e geralmente opressivas com profissionais médicos, foi informado de que seu filho poderia ser ajudado pelo uso de doses pequenas de medicação estimulante, DROGA (ou ENTORPECENTE) será uma palavra que você terá de assimilar quando ela for lançada contra você no local onde você menos esperaria: a farmácia.

O primeiro dessa série de eventos infelizes ocorreu há 1 mês. A farmácia teve dificuldade de obter toda medicação do meu filho. Nós estávamos esperando por muito tempo, então eu perguntei ao farmacêutico se ele poderia dar para o meu filho algumas doses da medicação para que ele melhorasse, enquanto aguardávamos que o restante da medicação chegasse. Isso não me pareceu ser esquisito. A farmácia já tinha feito isso uma vez, quando houve problemas com meu remédio para pressão alta. A pessoa a quem eu propus minha idéia deu um passo para trás, olhou para mim com espanto e falou bem alto, "Minha senhora, esta medicação é um entorpecente. Não podemos fazer isso com drogas".

O segundo episódio ocorreu mais recentemente. A medicação do meu filho precisou de uma pequena alteração, e houve complicações no preenchimento da receita. Decidi falar com a farmácia antes da hora - e antes de alguma tempestade de neve intensa - para garantir a quantidade que precisaríamos ter em estoque. Uma vez mais, fui atingida com a mesma palavra pela mesma pessoa: "Minha senhora, não podemos dar essa informação sobre entorpecentes pelo telefone."

Gostaria de acreditar que o uso dessa palavra por essa pessoa fosse puramente inocente - que talvez a palavra fosse a que ela tenha sempre usado, que ela não entendesse suas nuances, que ela a usasse no seu estrito sentido farmacêutico.

Para o leigo, entretanto, a palavra entorpecente, ou droga, tem conotações - e preconceitos a respeito dela. Até a definição do dicionário aponta para suas implicações menos simpáticas. Uma pequena leitura mais aprofundada já revela os fatos mais repelentes: "Entorpecentes são drogas ilegais. Drogas ilegais são usadas por viciados e criminosos. Assim, entorpecentes devem ser abomináveis, e os que os utilizam devem ser igualmente abomináveis."
Isso não é o professor de inglês que está falando ou uma artífice da palavra dentro de mim que está falando. Não é também a mãe protetora e defensora. Pergunte a qualquer um o que ele pensa quando ouve a palavra entorpecente, e eu acho que imagens do meu querido filho e de sua mãe obediente à lei virão à mente.

Há outros modos de descrever a medicação de que ele precisa: "estimulantes", sim, mas também "substância controlada", ou, possivelmente, a mais preferível "a receita do seu filho". Essas alternativas mais gentis existem não para camuflar a verdade - tenho total conhecimento dos produtos químicos que meu filho toma e porquê - mas para mostrar respeito, especialmente para uma pessoa que precisa suportar o que outros podem não entender completamente.

Para crédito da farmácia, quando eu falei sobre isso com a gerente, ela foi profissional e cooperativa. Entretanto, pais de crianças com TDAH, para não mencionar as pessoas com TDAH elas mesmas - embora acostumadas com julgamentos - não são imunes a isso. Há algo particularmente rude em descobrir isso na farmácia onde você obtém os itens que tendem a promover a maioria dos mal entendidos e dos preconceitos.

Meu filho não é um viciado, e eu não sou uma traficante. Ele é um meigo menino de oito anos com deficiência de dopamina, que foi diagnosticado como portador de TDAH. Eu sou uma mãe que tem derramado mais lágrimas do que posso contar em cada etapa do processo de diagnóstico. Trabalho duro e a medicação que compramos todo mês na farmácia transformaram a vida do meu filho. Ambos trouxeram a ele a paz e a estabilidade e permitiram que ele progredisse academicamente e socialmente. 

Essa jornada não tem sido fácil - tremendamente gratificante, sim, mas ainda não é um caminho que eu deseje a alguém.
Assim, se você me vir na farmácia, comprando a medicação do meu filho, saiba que essa nossa história é mais complicada do que uma mãe esgotada comprando alguma "droga" para acalmar seu filho agitado. É mais complicada do que minhas palavras podem expressar e, portanto, mais complicada do que a maioria das pessoas poderá imaginar.


ADDitude