"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

domingo, 30 de março de 2014

328- Os Sete Tipos de TDA e Como Tratar Cada Um Deles


Por Daniel G. Amen, double-board certified psychiatrist

"Um tratamento não serve para todo mundo"

Como fundador de seis clínicas (Amen Clinics), trago uma abordagem multidisciplinar para o diagnóstico e o tratamento de transtornos com base cerebral, incluindo o TDA e as condições coexistentes. Durante cerca de vinte anos tenho usado as imagens cerebrais obtidas pelo SPECT, junto com outras técnicas de diagnóstico, para desenvolver planos de tratamento individualizados para cada paciente. Logo no início, descobri por meio de padrões do SPECT que o déficit de atenção não é um transtorno único ou simples.

Meu TDA não é o seu TDA

TDA, ansiedade, depressão, transtorno bipolar, autismo e outras condições não são transtornos simples ou únicos. Eles são de vários tipos. O TDA afeta muitas áreas do cérebro - o córtex pré-frontal e o cerebelo, principalmente, mas também o cíngulo anterior, os lobos temporais, os gânglios da base e o sistema límbico. Os sete tipos de TDA que eu estudei são baseados em três neurotransmissores: dopamina, serotonina e GABA.

1- O TDA clássico

Esse é o tipo mais fácil de identificar: os sintomas principais são desatenção, distratibilidade, hiperatividade, desorganização e impulsividade. As imagens do cérebro mostram atividade cerebral normal em repouso e atividade diminuída especialmente no córtex pré-frontal durante uma tarefa que exija concentração. As pessoas com esse tipo de TDA têm diminuição do fluxo sanguíneo cerebral no córtex pré-frontal, cerebelo e gânglios da base (estes últimos ajudam a produzir o neurotransmissor dopamina).

Tratamento do TDAH clássico

Aqui, o objetivo é aumentar os níveis de dopamina, que aumenta o foco. Eu faço isso com medicação estimulante (Ritalina, Adderal, Venvanse, Concerta) ou com suplementos estimulantes como rhodiola, chá verde, ginseng e o amino-ácido L-tirosina. Muita atividade física também ajuda a aumentar a dopamina, assim como o óleo de peixe, que é mais rico em EPA (ácido eicosapentaenóico) que em DHA (ácido docosaexaenóico), ambos componentes do ômega 3.

2- O TDA Desatento

Esse tipo, assim como o tipo clássico de TDA, foi descrito no DSM (The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Deseases) desde 1980. Esse tipo é associado a baixa atividade no córtex pré-frontal e baixos níveis de dopamina. Os sintomas são baixa capacidade de atenção, distratibilidade, desorganização, procrastinação. As pessoas com esse tipo não são hiperativas ou impulsivas. Elas podem ser introvertidas e sonharem acordadas bastante. As meninas têm esse tipo tanto quanto, ou mais ainda que, os meninos

Tratamento do TDA desatento

O TDA desatento geralmente responde ao tratamento. Geralmente é possível mudar o curso da vida de uma pessoa se ela for tratada de modo conveniente. A meta, assim como com o tipo clássico, é aumentar os níveis de dopamina. Eu utilizo os suplementos como o aminoácido L-tirosina, que é um dos formadores da dopamina. Tomado em jejum dá um efeito melhor. Geralmente receito um estimulante como Adderal, Venvanse ou Concerta. Indico dieta rica em proteínas e com pouco hidrato de carbono, e exercitar-se regularmente.

3- O TDA superfocalizado

Os pacientes com esse tipo têm todos os sintomas principais do TDA, além de grande dificuldade de mudar o foco da atenção. Eles ficam presos em padrões de pensamentos ou comportamentos negativos. Há uma deficiência em serotonina e em dopamina no cérebro. Quando o cérebro é escaneado, você vê que há muita atividade na área denominada giro cingulado anterior, que é a caixa de câmbio do cérebro. Essa superatividade torna difícil ir de pensamento em pensamento, de tarefa em tarefa, e ser flexível.

Tratamento do TDA superfocalizado

A meta é aumentar os níveis de serotonina e de dopamina no cérebro. O tratamento é complicado. Pessoas com o TDA superfocalizado se tornam mais ansiosas e preocupadas quando tomam medicação estimulante. Eu uso em primeiro lugar os suplementos - L-triptofano, 5-HTP, açafrão  e inositol. Se os suplementos não ajudam os sintomas, receito Effexor, Pristiq ou Cymbalta. Evito a dieta rica em proteína nesse tipo de TDA, que pode piorar esses pacientes. O treinamento com neurofeedback é outra arma útil.

4- O TDA do lobo temporal

Esse tipo de TDA tem os sintomas principais do TDA mais os sintomas do lobo temporal (TL). O lobo temporal está localizado sob a nossa têmpora, e está envolvido com a memória, aprendizagem, estabilidade do humor e o processamento visual dos objetos. Pessoas com esse tipo têm dificuldades de aprendizagem, de memorizar e problemas de comportamento, tais como raiva súbita, agressividade e leve paranóia. Quando o cérebro é escaneado, há anormalidades nos lobos temporais e atividade diminuída no córtex pré-frontal.

Tratamento do TDA do lobo temporal

Eu utilizo o ácido gama-aminobutírico (GABA) para diminuir a atividade neuronal e inibir as células nervosas de dispararem demais ou erraticamente. Tomar magnésio - cerca de 80% da população tem níveis baixos desse mineral - ajuda na ansiedade e na irritabilidade. Medicamentos anticonvulsivantes geralmente são receitados para auxiliar na instabilidade do humor. Para os problemas de memória e de aprendizagem, eu uso gingo ou vinpocetina.

5- O TDA límbico

Esse tipo parece uma combinação de distimia ou tristeza crônica de baixo nível com o TDA. Os sintomas são mau humor, baixa energia, frequentes sentimentos de desamparo ou de culpa excessiva, e crônica baixa autoestima. Não é depressão. Esse tipo é causado por muita atividade no sistema límbico do cérebro (o centro de controle do humor), e baixa atividade no córtex pré-frontal, seja concentrado em uma tarefa ou em repouso.

Tratamento do TDA límbico

Os suplementos que funcionam melhor para esse tipo de TDA são DL-fenil-alanina (DLPA), L-tirosina, e SAMe (s-adenosil-metionina). Wellbutrin é o medicamento de minha preferência nesse tipo de TDA. Os pesquisadores acham que ele funciona por aumento da dopamina. Imipramina é outra opção para esse tipo. Exercício, óleo de peixe e a dieta correta auxiliarão uma pessoa com TDA límbico a melhor controlar os sintomas.

6- O TDA anel de fogo

Pacientes com esse tipo não têm um córtex pré-frontal hipoativo, como no TDA clássico e no desatento. Todo o cérebro é hiperativo. Há muita atividade em todo o córtex cerebral e em muitas outras partes do cérebro. Eu o denomino de "TDA plus". Os sintomas incluem sensibilidade ao barulho, à luz, ao tato (como no autismo); períodos de comportamento maldoso, incomodativo; comportamento imprevisível; fala rápida; ansiedade e medo. Nos escaneamentos cerebrais, parece um anel de hiperatividade ao redor do cérebro.

Tratamento do TDA anel de fogo

Os estimulantes, por si mesmos, podem piorar os sintomas. Eu começo com uma dieta de eliminação, se suspeito de que uma alergia esteja em jogo, e aumento os neurotransmissores GABA e serotonina por meio de suplementos e medicamentos, se for necessário. Receito suplementos de GABA, 5-HTP e L-tirosina. Quando receito medicação, começo com um dos anticonvulsivantes. Os medicamentos para pressão alta, guanfacina e clonidina, podem ser úteis, acalmando toda a hiperatividade geral.

7- TDA ansioso

As pessoas com esse tipo têm os sintomas principais do TDA e são ansiosas, tensas, têm sintomas de estresse físico como dor de cabeça e dor de estômago, prevêem o pior e ficam paralisadas em situações que provocam ansiedade, especialmente quando podem ser objeto de crítica. Quando o cérebro é escaneado, há alta atividade nos gânglios da base, grandes estruturas na profundidade do cérebro, que ajudam a produzir dopamina. Esse é o oposto da maioria de tipos de TDA, nos quais há baixa atividade nessa região.

Tratamento do TDA ansioso

A meta do tratamento é promover o relaxamento e aumentar os níveis de GABA e de dopamina. Os estimulantes para o TDA, tomados isoladamente, tornam os pacientes mais ansiosos. Eu uso, primeiro, um conjunto de suplementos "calmantes" - L-theanina, relora, magnésio e "holy basil" (Ocimum tenuiflorum). Dependendo do paciente, receito os antidepressivos tricíclicos imipramina ou desipramina, para diminuir a ansiedade. Neurofeedback também funciona para diminuir os sintomas de ansiedade, especialmente para acalmar o córtex pré-frontal.



Dr. Daniel G. Amen  -  ADDitude