"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O Jogo da Vergonha e o TDAH (381)


Por que pessoas com TDAH sofrem com sentimentos de vergonha e como elas conseguem superá-los. Por William Dodson, M.D.

Vergonha não é culpa

Vergonha (shame) é umas das mais velhas palavras inglesas conhecidas, que originalmente significava "esconder" ou "encobrir". Como tal, vergonha é a coisa mais difícil de se lidar, porque tende a ficar escondida e nunca ser resolvida. Sentir vergonha é diferente de sentir culpa. Culpa refere-se a algo que se tenha feito. Vergonha tem a ver com o que se é.

Sentir-se isolado e diferente

Para os TDAHs, a vergonha surge de repetidos fracassos para atingir as expectativas dos pais, professores, amigos, chefes e o mundo. Calcula-se que os que têm TDAH recebem 20 mil mais mensagens negativas até a idade de 12 anos do que os que não têm o transtorno. Eles se vêem a si mesmos como fundamentalmente diferentes e imperfeitos. Eles não são como as outras pessoas.

Sentir-se mal consigo mesmo

É especialmente doloroso quando pessoas bem comportadas, que fazem parte da vida de uma pessoa com TDAH, dizem que ela falhou ou que desistiu. Os TDAHs são acusados, diretamente ou por simplificação, de serem preguiçosos, ou deliberadamente desobedientes - como se eles se programassem para fracassar. É difícil não se sentir mal consigo mesmo. De fato, um especialista acredita que a "baixa autoestima" deveria ser um dos critérios para o diagnóstico do TDAH nos adultos.

Raiva contra os que criticam

Os TDAHs que sentem vergonha escondem-se em si mesmos - ou escondem-se atrás de uma raiva contra a fonte identificada da negatividade. Isso pode explicar por que pessoas com TDAH temem que os outros as conheçam intimamente, ou que vejam como elas vivem. Os TDAHs guardam dois segredos horríveis: seu futuro é descontrolado  e incontrolável, e a vida pode infligir a vergonha que machuca, tão facilmente quanto engendra o sucesso.

Dificuldades com as tentativas de ser perfeito

A muitos TDAHs, a vergonha causa a tentativa de serem perfeitos. Uma pessoa pensa: "Se eu pareço e faço tudo perfeito, posso evitar a vergonha. Um TDAH, que tenha essa crença, está constantemente avaliando todos em sua vida - amigos, família, filhos - para ver o que eles aprovam e valorizam, e lhes dá isso de volta. A pessoa com TDAH se esquece do que quer de verdade para a sua própria vida.

A desistência

Muitos TDAHs, que sentem vergonha, param de tentar fazer coisas - no trabalho e em casa - a não ser que tenham a garantia antecipada de sucesso rápido, completo e fácil. Eles não têm a habilidade de manter o esforço por muito tempo, se não estão tendo sucesso completo. Isso geralmente é interpretado como preguiça, levando a pessoa a se sentir mais envergonhada e mais mal compreendida. É por essa razão que os videogames são tão populares. Se você fracassa, só você fica sabendo. Você reinicia o jogo e segue em frente, como se nada tivesse acontecido.

A vergonha de pedir ajuda

A vergonha aparece no caminho dos adultos e crianças que pedem ajuda. Para muitas pessoas com TDAH, contar ao médico os seus fracassos e pedir para receber medicação para ajudá-las a serem bem sucedidas, é impensável. Elas já tentaram de tudo e nada funcionou. Muitas crianças preferem repetir de ano a pedir ajuda do professor. É por isso que muitos pais acham que foram cegos quando descobrem o quão mal seu filho está indo nos estudos. Seu filho não conta nada para eles porque sente muita vergonha em ter de admitir isso.

Culpar os outros

Muitos com TDAH resolvem culpar os outros por sua incapacidade de resolver os problemas que os fazem sentir vergonha. Depois que encontram alguém a ser culpado, lavam as mãos da responsabilidade e das providências para corrigir o erro. A meta de quebrar o ciclo da vergonha é adotar o ponto de vista do investidor financeiro George Soros: "Não há nada vergonhoso em estar errado, só em fracassar na correção de nossos erros"

Espantar a vergonha sorrindo

Para os TDAHs, o humor é uma das melhores armas contra a vergonha. Rir de uma situação que deu errado ou de um erro que você cometeu traz mais aceitação de si mesmo e alivia as atitudes geralmente severas desenvolvidas contra si próprio na infância. o humor elimina o poder da vergonha sobre nós.

Aceite-se a si mesmo - com verrugas e tudo

Embora as pessoas que se sentem envergonhadas sejam intensamente focalizadas em como o mundo exterior as vê, o primeiro passo para combater isso é a auto-aceitação. Até que uma pessoa com TDAH seja capaz de aceitar-se e valorizar-se, embora não seja perfeita, ela realmente não poderá acreditar que os outros possam amá-la do jeito que ela é.

Encontre um líder de torcida

Ter alguém - um amigo, vizinho, treinador, ou avô - que aceite e ame uma criança ou adulto com TDAH, apesar dos seus defeitos e limitações, é vital para superar a vergonha. Isso é o oposto do perfeccionismo, no qual a aprovação está na dependência do que a pessoa tem feito ultimamente. A pessoa que aceita age como um vaso que contém a memória de você como uma pessoa boa e valiosa, mesmo quando as coisas não vão bem.

A força dos números

Um grupo de apoio aos TDAHs pode ser uma ilha de boa recepção num mundo TDAH. Finalmente, a pessoa é compreendida. As outras pessoas do grupo estiveram em suas sandálias e sabem a vergonha e o fracasso em ser diferente. o grupo vê a pessoa como ela é e corrige as distorções que resultam de esconder-se em um mundo interior de vergonha. Além disso, grupos de auto-ajuda estabelecem metas específicas para os TDAHs que são mais realistas e amáveis.

Revele a verdade

Um médico e um terapeuta precisam ser vigilantes para os sinais da vergonha porque muitos TDAHs a escondem do mundo. É fundamental para o diagnóstico correto e a terapia bem sucedida que o terapeuta e o paciente estejam conscientes da intensidade emocional que é parte da vida de um paciente. Uma grande quantidade de pacientes tenta esconder este componente emocional, temerosa de ser ferida posteriormente se a verdade for conhecida.


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