"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A verdade sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) (396)


O TOC é difícil de entender e de manejar, mas é possível ser controlado! Veja, a seguir, o que você precisa saber sobre o transtorno obsessivo-compulsivo. Por Roberto Olivardia, Ph.D.

O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é uma doença mental incômoda, que atinge aproximadamente 1 em 100 pessoas, ou 3 milhões de adultos, e 1 em 200 crianças e adolescentes, ou 500 mil jovens, nos Estados Unidos. As pessoas com TOC, e que também foram diagnosticadas com TDAH, têm muito trabalho para lidar com os dois problemas.

O ABC do TOC

O TOC é caracterizado por obsessões e/ou compulsões. Obsessões são pensamentos persistentes, ou imagens que são inoportunas, intrusivas, e causam estresse e ansiedade. Preocupações com os problemas da vida real não são a mesma coisa que obsessões. As pessoas com TOC tentam ignorar as obsessões ou neutralizá-las com algum pensamento ou ação. Mesmo que a lógica diga que as obsessões são irracionais, é difícil ignorá-las.

Obsessões comuns incluem contaminação (medo de contrair uma doença), dano (medo de ser responsável por algo de mal que aconteça com uma pessoa amada), perfeccionismo (uma necessidade de ter tudo simétrico, tudo correto, ou ideal), escrúpulos ou obsessões religiosas (medo de ofender a Deus), e pensamentos intrusivos sexuais ou violentos.

Compulsões são comportamentos físicos repetitivos (tais como lavar as mãos ou rezar) ou atos mentais (tais como dizer palavras silenciosamente, contar, criar imagens) que uma pessoa se sente compelida a fazer para não fazer ou para controlar a obsessão. A compulsão pode não ter nada a ver com a obsessão.

Compulsões comuns incluem conferir (ligar para um membro da família para ter certeza de que seu pensamento de eles terem sofrido algum mal, de fato não causou mal a eles), lavar e limpar, rituais mentais (contar, rezar, rever cada momento do dia para ter certeza de que não cometeu nenhum ato ofensivo), e evitação (recusa de ir à escola dos filhos por medo de se expor aos germes).

Tal como o TDAH, o TOC tem um forte componente genético e tende a ocorrer em famílias. Embora alguém com TOC possa não ter um membro da família com TOC, ele provavelmente terá um membro da família com um transtorno do espectro do TOC: anorexia nervosa, transtorno dismórfico corporal, transtorno de ansiedade social, tricotilomania (arrancar compulsivo dos cabelos), dermatotilomania (transtorno de escoriação), transtorno de pânico, hipocondria, acumulação, transtorno de Tourette, ou transtornos do espectro autista. O TOC tem uma forte base biológica. Os estudos descobriram desequilíbrios químicos do neurotransmissor serotonina associados ao TOC. Uma grande massa de pesquisa tem sugerido que os gânglios basais e os lobos frontais do cérebro não funcionam corretamente nos pacientes com TOC, levando a pensamentos rígidos, obsessivos e a movimentos repetitivos.

A idade de início do TOC geralmente cai em duas faixas de idade. A primeira é entre as idades de 10 e 12 anos, a segunda é no final da adolescência e início da idade adulta.

Os sintomas do TOC interferem com o funcionamento social, acadêmico, ocupacional e da vida diária. A batalha exaustiva com o TOC resulta em baixa autoestima, depressão, problemas com abuso de substâncias, problemas de relacionamento, fracasso escolar e problemas no trabalho.

Como o TOC e o TDAH se relacionam um com o outro?

Não está claro quantas pessoas com TDAH têm TOC, mas os estudos têm focado na prevalência de TDAH na população com TOC e estimam que aproximadamente 30% dos pacientes com TOC também têm TDAH.

À primeira vista, TDAH e TOC podem ser vistos como condições clínicas opostas. Os portadores de TDAH são caracterizados por serem espontâneos, impulsivos e orientados para o prazer e a estimulação. Os portadores de TOC tipicamente são metódicos, compulsivos (pensam muito antes de agir), e orientados a evitar tudo que possa gerar ansiedade.

Entretanto, se os dois transtornos forem considerados em termos de funções executivas, fica claro que os portadores de TOC têm algum déficit de atenção e de funções executivas semelhantes aos dos que têm TDAH.

> As pessoas com  TOC têm um problema com a atenção seletiva. Elas prestam muita atenção a algo que elas vêem como uma ameaça.

> Elas acham que é difícil afastar-se de certos estímulos, e são incapazes de filtrar dados irrelevantes, para que não se esqueçam de algo que possa trazer uma consequência negativa.

> Priorizar pode ser desafiador. Um estudante com perfeccionismo freneticamente anota tudo que o professor fala na sala de aula. Para o estudante, não anotar tudo pode significar que ele perderá a lição. Entretanto, isso pode levar o aluno a perder a noção geral do assunto.

> Os que têm TOC são incapazes de filtrar os pensamentos obsessivos, que são uma distração das tarefas.

> Os que têm TOC apresentam déficits cognitivos nas tarefas de memória visual, quando prestam atenção em um pequeno detalhe e não podem lembrar-se do problema maior.

Os estudos têm demonstrado que ter TOC e TDAH está associado a mais problemas de atenção, sociais, acadêmicos e familiares do que ter cada um deles isoladamente. A idade de início do TOC é mais cedo nos que também têm TDAH.

Tratamento do TOC

Duas intervenções se demonstraram, por numerosos estudos, eficazes no tratamento do TOC. A primeira é a TCC - Terapia Cognitivo Comportamental,  especificamente a Terapia de Prevenção de Resposta à Exposição (TPRE). A segunda é a medicação. A parte cognitiva da TCC focaliza atingir os pensamentos negativos, identificar as distorções e reprogramar os pensamentos com uma visão correta.

O tratamento mais importante do TOC é a TPRE. Implica a confrontação do pensamento, imagem, objeto ou situação que faz a pessoa com TOC ficar ansiosa. A TPRE também implica confrontação de um sintoma exagerado do TOC. Se alguém evita tocar uma maçaneta, por medo de contaminação,  um terapeuta de TPRE fará a pessoa por suas mãos no assento da privada de um banheiro público por 15 minutos.

A prevenção de resposta se refere a fazer uma escolha de não ter o comportamento compulsivo depois da exposição. Não lavar as mãos ao menos por uma hora depois de ter tocado o assento da privada. Nenhum ritual mental para desfazer o pensamento ofensivo. A TPRE trabalha com a noção de que o que sobe, precisa descer. O propósito é aumentar o nível de ansiedade, enfrentá-la, sem evitação, até que o corpo, eventualmente, a tolere.

A medicação é muito eficaz para o tratamento dos sintomas do TOC. A classe de medicamentos mais eficiente é a dos antidepressivos conhecidos como Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS). Entre eles estão fluvoxamina, sertralina, citalopram, escitalopram, fluoxetina e paroxetina. Esses medicamentos aumentam a quantidade de serotonina no cérebro.
Os medicamentos para o TOC não pioram os sintomas do TDAH. Entretanto, a medicação estimulante para o TDAH pode, às vezes, fazer piorar os sintomas do TOC. Pacientes com TDAH e TOC às vezes acham que os estimulantes pioram sua capacidade de prestar atenção em tudo, exceto em suas obsessões. Para outros, os estimulantes podem afetar positivamente o TOC, ou podem não ter nenhum efeito sobre os sintomas do TOC. A psicoterapia também é útil face às dificuldades relacionadas com o TOC, tais como a vergonha e a baixa autoestima. A terapia de casais e a terapia de família também são recomendadas.

O essencial é trabalhar com os especialistas em TDAH e TOC. Nem todos os terapeutas são treinados em TCC ou em TPRE. Se você tiver TOC, seu terapeuta deverá ter experiência em seu tratamento. o tratamento correto pavimentará a via para uma vida livre de obsessões e compulsões torturantes.

TDAH versus TOC: desembaralhando os sintomas

É importante diagnosticar corretamente os sintomas quando alguém sofre com o TOC, TDAH, ou ambos.

Quando as pessoas têm os dois, um deles geralmente passa despercebido. A seguir, alguma maneiras comuns pelas quais o TDAH ou o TOC podem não ser diagnosticados ou confundidos um com o outro:

1- O TDAH é menos diagnosticado na população adulta com TOC, por causa da falta de reconhecimento do TDAH em adultos

2- É senso comum que todos os que têm TDAH fracassam academicamente, quando muitos com TDAH se desempenham adequadamente nas atividades escolares. Os pacientes que têm ambos os transtornos relatam que seu TDAH torna a escola difícil, mas os sintomas do TOC mascaram seus esforços, criando grave ansiedade em relação ao fracasso.

3- O TDAH desatento é sub-diagnosticado, assim, a falta de sintomas de hiperatividade pode resultar no não aparecimento do TDAH no radar das pessoas que têm TOC e TDAH.

4- Às vezes, os sintomas do TDAH e do TOC se misturam ou um imita o outro. Um paciente com os dois transtornos tem de arrumar seu quarto meticulosamente antes de escrever um relato, dizendo que ficaria muito distraído se houvesse qualquer desarrumação ou bagunça em seu quarto. Embora o comportamento de limpeza possa ser visto como TOC, ele é mais devido ao seu TDAH. Quando ele não tem de escrever um relato, ele não se importa com um quarto bagunçado.

5- Outra confusão comum é a que ocorre entre a especificidade relacionada ao TDAH e o perfeccionismo relacionado ao TOC. Uma pessoa pode ter preferência por uma caneta específica para escrever, ou usar um certo modelo de roupa para ir às aulas. Tudo isso é para criar um ambiente ótimo para prestar atenção.

Além disso, certos TDAHs são sensíveis a algumas texturas, roupas e sons. Isso pode ser incorretamente diagnosticado como perfeccionismo do TOC, que é diferente. O perfeccionismo do TOC é mais sobre um desejo de atingir uma "moral correta". Se alguém fracassa em atingir a perfeição, a pessoa é imoral ou má e se sente desvalorizada. às vezes é difícil dizer por que alguém precisa que as coisas sejam perfeitas. As pessoas com TOC geralmente procuram o sentimento "bem correto", o que é menos que uma experiência sensorial. Alguém pode lavar as mãos 30 vezes e obter o sentimento "bem correto" na trigésima vez, mesmo que a experiência sensorial tenha sido idêntica nas 30 vezes.

6- O hiperfoco visto nos TDAHs o foco exagerado visto no TOC podem ser confundidos um com o outro. Hiperfoco é um nível intenso de atenção quando os TDAHs se sentem produtivos e fluidos. Isso é muito diferente de ter o foco exagerado, o que deixa alguém paralisado e preso.

7- O TOC pode ser ignorado em populações TDAH por causa dos falso conceito sobre o TOC. Uma ideia errada comum é a de que todas as pessoas com TOC são limpas e altamente organizadas. Ser bagunçado não exclui o diagnóstico de TOC, porque há muitas manifestações do TOC.


Roberto Olivardia, Ph.D. - ADDitude