"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

126- Como os sintomas do TDAH dos filhos afetam os sentimentos e o comportamento dos pais.

O TDAH nas crianças induz estresse nos pais. De fato, os pais de crianças com TDAH relatam maior grau de estresse paterno, menor satisfação com seu papel de pais, e mais sintomas depressivos do que outros pais. Eles também relatam interações mais negativas com seus filhos. Isto certamente não é verdadeiro para todas as famílias em que há uma criança com TDAH, mas reflete as diferenças médias que foram encontradas.

De que maneira os sintomas do TDAH nas crianças afetam os sentimentos dos pais sobre a paternidade e seu comportamento em relação aos seus filhos? E, isto é diferente para meninos e meninas? Estas questões constituíram o foco de um estudo publicado recentemente online: Glatz et al., (2011). Parents´reactions to youths´ hyperactive, impulsivity and Attention problems. Journal of Abnormal Child Psychology. Publicado online em 13 de julho de 2011.
Os participantes foram 706 crianças (376 meninos e 330 meninas) e seus pais, de uma cidade de porte médio da Suécia. Eles foram escolhidos após um estudo longitudinal de 5 anos, que incluiu quase todos os jovens desde o 4º. até o 12º. grau desta cidade. Os jovens tinham de 10 a 12 anos no início do estudo e estavam na adolescência na época da conclusão. Esta não foi uma amostra de jovens diagnosticados com TDAH, mas uma amostra regular da comunidade.
Três ondas de dados dos pais foram coletadas (cerca de 70% mães), com aproximadamente 2 anos entre cada onda. As medidas obtidas durante cada onda incluíam o seguinte:
Sintomas do TDAH das crianças – Os pais davam notas aos sintomas do TDAH de seus filhos usando uma escala de avaliação padronizada.
Desafio dos jovens – Notas do comportamento de oposição das crianças.
Falta de resposta à correção dos pais – Esta escala media como os pais sentiam que seus filhos normalmente respondiam às tentativas paternas de influenciar seu comportamento. Notas altas refletiam os sentimentos paternos de que seus filhos não respondiam a tais esforços.
Sentimentos paternos de impotência – Esta escala media a percepção dos pais de sua incapacidade de mudar o comportamento problemático dos seus filhos. Notas altas refletiam o sentimento paterno de que ele estava relativamente sem poder de mudar o comportamento problemático do seu filho. Uma amostra de um item desta escala é “Você alguma vez sentiu-se a ponto de desistir – sentiu que não havia nada que pudesse fazer sobre os problemas que tinha com seu jovem?”
Além de coletar dos pais os dados acima, as crianças também preenchiam escalas de medidas de sua percepção sobre o afeto, a frieza e a rejeição dos pais em relação a elas. Essas escalas foram coletadas durante as ondas 2 e 3.
Hipótese de Estudo
Como os dados foram coletados em período de 5 anos, os pesquisadores puderam testar se os sintomas do TDAH previam a percepção dos pais da falta de resposta da criança e do seu próprio senso de impotência, vários anos mais tarde. As previsões específicas testadas foram: 1) os sintomas de TDAH da criança levam os pais a perceber seu filho como não respondente à correção; e, 2) o sentimento de que a criança não responde à correção leva ao aumento dos sentimentos paternos de impotência.
O estudo longitudinal também permitiu aos pesquisadores que testassem como os sentimentos de impotência dos pais podem influenciar seu comportamento em relação ao filho. Eles fizeram a hipótese de que os pais que sentiam mais impotência seriam percebidos pelos seus filhos como menos calorosos e mais frios e teriam mais rejeição em relação a eles, filhos, com o passar do tempo.
Resultados
Os resultados deste estudo foram muito consistentes com a hipótese acima. Os relatos dos pais sobre os sintomas dos filhos no tempo 1 previram os sentimentos aumentados de que a criança não respondia à correção dois anos mais tarde. Por seu turno, os relatos dos pais sobre a falta de resposta das crianças à correção no tempo 2 previram os sentimentos aumentados de impotência dois anos mais tarde.
Em seguida, os autores testaram se os sentimentos de impotência dos pais previam a percepção dos jovens de como seus pais se comportavam em relação a eles. Os pais que relataram mais impotência no tempo 1 tinham filhos que relatavam mais frieza e comportamento paterno de rejeição e reduzido calor paternal dois anos mais tarde.
Os resultados acima foram muito consistentes entre meninos e meninas. Além disso, estes resultados permaneceram muito estáveis mesmo quando se levava em conta o nível de desafio das crianças, sugerindo que os sintomas do TDAH têm um efeito direto nos processos estudados.
Resumo e implicações
O impacto adverso dos sintomas de TDAH das crianças nos níveis de estresse dos pais, a satisfação com o papel de pai, e mesmo os sintomas depressivos eram conhecidos já há algum tempo. Os resultados deste estudo sugerem que não são os sintomas do TDAH que afetam os pais deste modo, mas sim a percepção dos pais que o maior desafio seja seus filhos terem alta taxa de não resposta à correção.
Comportamentos associados com o TDAH parecem influenciar negativamente os pais porque são percebidos como basicamente fora do controle deles, o que contribui para o aumento dos sentimentos de impotência. Sentimentos de impotência, por sua vez, podem levar os pais a se comportar em relação aos filhos de um jeito que aumente nos filhos a visão de mais frieza, de mais rejeição e de menos calor humano. Este ciclo foi muito semelhante para os meninos e meninas, e seria esperado que aumentasse os efeitos negativos nas crianças e nos pais ao longo do tempo.
O que é de algum modo irônico sobre estes achados é que, nas crianças com TDAH, os comportamentos que refletem desatenção, hiperatividade e impulsividade são tidos como tendo forte origem biológica e são, de modo verdadeiro, difíceis de serem controlados pelos pais e pelas crianças. Assim, não é surpresa que muitos pais sintam que crianças com altos níveis desses comportamentos sejam não respondentes à correção, e tais sentimentos não são necessariamente incorretos. O que torna esses sentimentos problemáticos, entretanto, é que eles contribuem para o aumento da sensação de impotência dos pais, talvez porque a compreensível dificuldade que os pais têm de corrigir os comportamentos que refletem os sintomas nucleares do TDAH possa leva-los a se sentir menos confiantes sobre a influência que possam ter sobre seus filhos em outros domínios importantes.
Um exemplo pode tornar isso mais claro. Se eu tenho um filho com TDAH que é gravemente hiperativo, será muito difícil conseguir que ele altere significativamente seu nível de atividade com o uso das estratégias que os pais podem adotar. É fácil imaginar que, se eu continuar a focar nisso, sentirei cada vez mais que meu filho não responde à correção e desenvolverei um crescente sentimento de impotência. Com o tempo, isto pode contribuir para eu estar menos disposto a tentar e exercer influência em áreas importantes nas quais eu teria maior chance de ser bem sucedido, por exemplo, ajudar meu filho a desenvolver uma habilidade ou talento particular, ou ajuda-lo a aprender a importância de desenvolver o conhecimento de hábitos razoáveis de poupar e de gastar.
Isto aponta para a importância de ajudar os pais a reconhecer que embora as crianças possam não responder à correção, quando se chega ao núcleo dos sintomas do TDAH que têm importante determinação biológica, isto não precisa ser generalizado para os outros aspectos da vida da criança, sobre os quais os pais desejam ter uma importante influência positiva. Entender claramente que é difícil fazer a criança mudar os sintomas nucleares do TDAH – muitos argumentarão que é nisto que o tratamento medicamentoso cuidadosamente monitorado pode ter um papel útil – pode proteger os pais dos sentimentos de crescente falta de poder para exercer influência positiva sobre seu filho, e ajudá-los a permanecer engajados com seus filhos por meio de atitudes que façam essas crianças sentirem calor humano, promoção e apoio.

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