"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

129- Mitos sobre os medicamentos do TDAH. Erros que até mesmo os médicos cometem

Quando se trata de tratamentos para o TDAH, há um monte de desinformação. Fizemos uma reunião dos principais erros que até mesmo os médicos cometem em relação aos medicamentos do TDAH e também dos principais mitos em que até os profissionais do tratamento acreditam. Por Gina Pera

Janete se lembra, com um arrepio, da primeira vez que tomou medicação como tratamento para o TDAH. “Fiquei grudada no sofá, incapaz de me mover, por dois dias”, diz a mulher de 37 anos, mãe de dois filhos, e gerente de marketing de uma companhia de software no Vale do Silício. “Eu parecia e me sentia como um zumbi. Isso me afastou de medicamentos”. Para o marido de Janete, o incidente confirmou sua crença antiga de que dar medicamentos para TDAH para o seu filho de 10 anos de idade seria o equivalente a drogá-lo.
Quando mais tarde Janete compareceu a um grupo de discussão para adultos com TDAH, ela aprendeu que algumas pessoas, que relatavam grandes resultados com o uso de medicação, diziam que demorou semanas para que tolerassem as doses prescritas pelo médico – e que muitas estavam tomando metade da dose receitada.
“Deveria ter me informado antes, em vez de confiar no médico”, diz Janet. “Agora meu marido fica bravo se eu tento novamente tomar o medicamento. Isso criou uma barreira entre nós; estou desistindo de um desempenho melhor para mim e para o meu filho por causa dos medos do meu marido”.
A experiência de Janet está ficando menos comum. Cada vez mais, os médicos estão aprendendo a usar a medicação para tratar adultos com TDAH, embora muitos adultos ainda encontrem profissionais cujo conhecimento sobre os medicamentos seja pontual, incluindo psiquiatras que se dizem especializados.
“Você poderia chamar o TDAH do adulto de uma “doença órfã”, diz Margaret Weiss, M.D., Ph.D., uma importante cientista clínica do TDAH, residente em Vancouver, na Columbia Britânica. “Isso é por que muitos profissionais com experiência para reconhecer e tratar o TDAH trabalham em serviços  para crianças; eles não estão trabalhando em centros para adultos ou vendo adultos.”
O mais importante para adultos com TDAH é: Seja um usuário esperto de tratamentos de saúde e aprenda o mais que puder sobre medicamentos antes de começar a tomá-los. A Canadian Attention Deficit Hyperactivity Disorder Resource Alliance (CADDRA), uma coalizão de especialistas em TDAH, criou guias completos de tratamento para pacientes, pais e médicos. As guias práticas, incluindo tabelas de medicamentos, são disponíveis como downloads grátis em CADDRA.ca. Meu próprio livro “Is It You, Me, or Adult ADD?” é outra boa fonte, assim como o e-book “ADHD Treatments,” da ADDitudeMag.com.
Enquanto isso, se o seu médico fizer alguma das 10 declarações seguintes, compartilhe com ele uma cópia das guias da CADDRA, discuta as coisas ou procure um outro médico.
1. “Meus pacientes adultos com TDAH ficam melhor com este medicamento estimulante.”
Médicos que trabalham com medicamentos estimulantes favoritos – o tratamento de primeira escolha para o TDAH – não têm uma base empírica para agirem assim, e estão jogando com suas chances de sucesso. Eis por que. Há duas classes principais de medicação estimulante: metilfenidato, ou MPH (Ritalina, Concerta), e anfetaminas, ou AMP (Venvanse). Os da classe MPH funcionam melhor para algumas pessoas que foram diagnosticadas com TDAH, mas não têm nenhum efeito, ou têm efeitos negativos, em outras pessoas. O mesmo é válido para a classe AMP. Não há nenhum jeito de prever como você responderá a cada classe de estimulante, até que você experimente.
Patricia Quinn, M.D., médica e especialista em TDAH, sugere que se tente ambas as classes de estimulantes (MPH e AMP) antes de decidir que eles não servem para você e passar para medicação não estimulante. “Você pode até mesmo tentar vários medicamentos da mesma classe antes de mudar para outra classe de estimulantes.” Por exemplo, Ritalina LA e Concerta são ambos de longa ação, da mesma classe MPH. Devido a modos diferentes de liberação, entretanto, cada um deles produz resultados diferentes.
2. “Para um adulto do seu peso e altura, começamos com esta dosagem”.
Uma dosagem ótima não tem relação com o peso e a altura da pessoa.
3. “Esta é uma dose média de início”.
Não há “dose média de início”. A escolha depende de muitos fatores, incluindo:
Sua história de uso de medicamentos estimulantes. Aqueles que já tomaram medicação estimulante no passado podem responder com menor sensibilidade do que pessoas que nunca os usaram.
Diferenças genéticas – algumas pessoas metabolizam a medicação mais rapidamente do que outras.
Condições coexistentes – ansiedade ou depressão, por exemplo, e seus tratamentos em curso.
Gravidade dos sintomas do TDAH. “O cérebro é profundamente complexo e os resultados diferem de pessoa a pessoa,” diz Weiss.
4. “Vamos aumentar a dosagem para 10 mg em duas semanas”.
Assim como um profissional não pode prever qual medicamento funcionará melhor, ou em que dose de início, ele também não pode prever uma meta de dose ótima. A dose ótima é identificada por um método chamado titulação: aumento cuidadoso da dose ao longo do tempo, até que os efeitos colaterais superem os benefícios, e, então, diminuição para a dosagem anterior. A abordagem sempre deve ser “comece com pouco e aumente devagar”.
5. “Então, como a medicação está funcionando com você?”
Julgar a eficácia da medicação requer mais do que o médico perguntar “Como vai?”. São necessários ao menos dois passos:
Fazer um cuidadoso inventário dos desafios que você está enfrentando (escrever um por um), antes de começar a medicação.
Rever regularmente cada dificuldade à medida que o tratamento progride, para identificar melhora (ou não), piora dos sintomas ou novos efeitos colaterais.
Durante esta fase de titulação, os especialistas recomendam falar semanalmente com seu médico. Visitas ao consultório devem ocorrer a cada três ou quatro semanas, para revisar os efeitos colaterais, a saúde física, o bem estar do paciente e dos familiares, e outras terapias, quando indicadas.
Muitos especialistas e pacientes relatam que não são muitos os médicos que monitoram as medicações usadas nos adultos. “É muito importante fazer isso, mas a pequena quantidade de médicos que o fazem é chocante”, diz o psicólogo Stephen Hinshaw, Ph.D., um importante pesquisador e professor de psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Você não pode notar pequenos avanços ou efeitos colaterais sem uma folha de monitoração.”
Weiss recomenda usar escalas de pontos para medir uma ampla faixa de sintomas e de funções; em outras palavras, uma régua para medir como você está se saindo na vida. A escala de pontuação Weiss Functional Impairment é uma boa maneira de começar. Ter um método tangível para observar as mudanças faz a meta tornar-se real e mantém o foco.
6. “Você deverá ver uma grande melhora dos sintomas daqui para frente”.
A pesquisa nos diz muito sobre a eficiência da medicação estimulante, mas não podemos dizer como a medicação afetará cada indivíduo. Isto é porque os ensaios clínicos são:
Conduzidos em situações controladas
Feitos com pacientes que não têm condições coexistentes (uma raridade entre os adultos com TDAH)
Muito curtos em duração (geralmente terminando antes que os efeitos colaterais possam se desenvolver).
Os potenciais efeitos benéficos do tratamento medicamentoso para o TDAH não devem ser superestimados, adverte Weiss. “É verdade que alguns sintomas podem melhorar dramaticamente em dias, ou mesmo em horas. Mas é importante esperar para julgar o efeito completo da medicação, porque pode demorar algum tempo para acumular todos os dados.”
Conforme você enfrente situações desafiadoras em sua vida, você pode comparar como a sua resposta difere daquela do passado. “Pode também demorar em notar diferenças em com agorao as pessoas reagem a você, ou para avaliar as mudanças para melhor quanto à sua eficiência no trabalho”, ela diz.
Weiss oferece estas regras:
Os sintomas tendem a melhorar em semanas.
O funcionamento melhora em meses.
Mudanças no desenvolvimento acontecem em anos. Por exemplo, o indivíduo que nunca teve um amigo agora faz e mantém um amigo. Um adulto que não conseguia manter um emprego agora pode ficar em um por um ano.
7. “Se o estimulante perturbar o seu sono, teremos que mudar para um não estimulante.”
As causas dos problemas de sono entre os adultos com TDAH são multifacetadas e pouco entendidas por muitos médicos. Cada vez mais, a pesquisa mostra para diferenças neurofisiológicas no ritmo circadiano, o relógio biológico interno que nos diz quando dormir. Além disso, há outros obstáculos para o sono relacionados ao TDAH, tais como ser incapaz de “aplicar os freios” num cérebro inquieto.
Na avaliação dos aparentes efeitos adversos de um estimulante sobre o sono, é importante prestar atenção ao tempo. Talvez os problemas de sono sejam causados pelo efeito rebote do medicamento quando ele pára de agir. Neste caso, você deveria tentar tomar a medicação mais cedo. Algumas pessoas com TDAH dormem melhor com um estimulante; tais medicamentos param o “ruído cerebral” e aumentam o foco para ir dormir e permanecer dormindo.
8. “Certo, continue usando cafeína, se você gosta”.
Muitos adultos com TDAH têm longo envolvimento com uso de café ou de bebidas cafeinadas. Mas a cafeína pode exacerbar o efeito dos medicamentos estimulantes, criando ansiedade e palpitações cardíacas. Você não consegue determinar o que está causando estes efeitos colaterais – o estimulante ou a cafeína – até que você reduza gradualmente o uso da cafeína antes de iniciar o estimulante. (Tente fazer isso com uns dias de antecedência, para que você não confunda a dor de cabeça pela retirada da cafeína com a dor de cabeça efeito colateral do medicamento).
“Algumas pessoas podem tolerar os estimulantes e a cafeína”, diz Weiss. “Para outras, a cafeína interfere criando ou exacerbando efeitos colaterais, tornando impossível aumentar o estimulante até doses terapêuticas”.
9. “Se você tem pressão alta, não pode tomar estimulantes”.
Um adulto deve fazer um minucioso exame físico antes de começar qualquer medicamento novo, e adultos com TDAH deveriam ter sua pressão arterial e frequência cardíaca medidas antes de começar, e periodicamente durante, o tratamento.
Entretanto, Weiss descarta o mito comum de que a hipertensão impede o uso de medicamento para o TDAH: “Eu diria que isso nunca é uma contraindicação. Você trata primeiro a hipertensão. E, de fato, há medicamentos para o TDAH que abaixam a pressão arterial”. Entre eles se inclui a guanfacine (nome genérico) e sua formulação de longa ação, Intuniv (nome comercial, nos Estados Unidos), que pode abaixar tanto a pressão sistólica quanto diastólica. Esses medicamentos são frequentemente usados como uma alternativa ou em conjunto com os estimulantes.
10. “Se você acha que o estimulante parou de funcionar para você, poderíamos tentar alguma outra coisa”.
Talvez o estimulante parou de funcionar por alguma de várias razões neurobiológicas. Ou você poderia ter se esquecido de como era a vida antes de começar a tomar o medicamento?
Adultos diagnosticados com TDAH mais tarde na vida, tipicamente, desenvolvem o hábito de prestar atenção somente em coisas excitantes ou novas. Após poucas semanas de experimentar a “novidade” da melhora dos sintomas, é fácil de esquecer o quanto você já melhorou. Isto é outra razão para manter registros escritos dos sintomas básicos e do progresso que você já fez. É a única maneira de saber se o remédio está cumprindo seu papel.

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