"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
RUI BARBOSA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

249- TDAH - O Cavalo Que Lê Minha Mente


 
A terapia equino-assistida para o TDAH forçou-me a alinhar minhas ações com minhas intenções e a demonstrar a calma confiança que eu pedia em retorno. Os cavalos, como aprendi, refletem o que veem em nossos corações e penetram em nossas mentes. Por Zoë Kessler

“Queria que você pudesse se ouvir”. Quando criança, eu escutava isso frequentemente da minha mãe não-TDAH. Eu achava que ela era maluca; minha audição era perfeita.
Depois do diagnóstico do meu TDAH, aos 47 anos de idade, descobri que as pessoas com o transtorno de déficit de atenção são observadores fracos. Demorou 40 anos, mas, finalmente, fiquei sabendo o que minha mãe queria dizer com aquilo.

Minhas palavras e ações estavam contra minhas intenções. Até o meu tratamento, essa confusão estragava meus relacionamentos, deixando-me perplexa e ferida. Desde então, descobri a Psicoterapia com Assistência Equina – que usa a estranha habilidade dos cavalos para espelhar as emoções e atitudes dos seus condutores. Conforme você interage com um cavalo, você aprende a observar e a responder aos comportamentos dele, em vez de ficar amarrado aos seus padrões de comportamento. Depois de uma sessão, conselheiros falam com seus clientes sobre o que aprenderam. Essa terapia tem me ajudado a me tornar atenta ao modo como os outros me veem e a ter certeza de que minhas palavras e ações refletem minhas intenções.
Muitas crianças e adultos com TDAH se apaixonam pela terapia equino-assistida porque ela é estimulante e divertida. Embora as crianças e os adultos amem trabalhar com cavalos, o foco da terapia equino-assistida não está em cavalgar ou tornar-se um cavaleiro - os participantes permanecem no chão - mas em seguir as instruções da equipe de terapia: um especialista com certificado em terapia equino-assistida, um profissional de saúde mental e um cavalo.

Sue Bass, especialista em terapia equino-assistida no Hope Ranch, em Rochester, Minnesota, e sua equipe, atendem três jovens irmãs de uma família mista. As duas mais velhas ficavam frustradas pela irmã mais nova que, segundo Bass, “não tinha nenhum limite, invadia o quarto delas e geralmente as provocava”. Bass notou que quando a irmã mais nova entrou na arena, um cavalinho começou a perturbar os cavalos grandes. “Ele ia para cima deles e mordia”, diz Bass. “Então ele começou a mordiscar os sapatos da menina. Ele não a machucou; mas foi uma peste total”. Isso incomodou a menina, que tentou fugir dele.
“As irmãs mais velhas olharam uma para a outra e perguntaram para a menor quem o cavalo lhe lembrava”. “O foco da sessão mudou, num relâmpago, para o comportamento da irmã mais nova”. A irmã mais nova teve uma imediata noção do que suas irmãs tinham de aturar o dia todo. “Não poderíamos ter planejado algo melhor!” acrescenta Bass.
Como Funciona a Terapia Equino-Assistida
Cavalos são grandes, poderosos e, às vezes, amedrontadores. Eles chamam a nossa atenção, mas não nos julgam quando refletem nosso comportamento. Isso permite que os clientes aprendam sobre seus comportamentos sem se tornarem defensivos. Por meio de questões dirigidas, o terapeuta ajuda os participantes a analisar suas interações com o cavalo e com os outros participantes.
Com base nas necessidades do cliente, a equipe terapêutica dá ao cliente um conjunto de instruções, tais como: “Observe os cavalos para ver qual seja adequado para você” ou “Construa um caminho de obstáculos escolhendo itens que representem coisa que o distraiam no decorrer do dia; então, puxe o cavalo pelas rédeas e o leve através do caminho de obstáculos”. Não são dadas outras instruções, e o cliente completa o processo (ou não) como achar apropriado. “Não é a tarefa que é importante”, diz Bass, “mas o que o cliente descobre sobre seus pensamentos e emoções, conforme lide com o cavalo”. Não há muita pesquisa que confirme a eficácia desse tipo de equoterapia. Um estudo, conduzido pela pesquisadora Kay Trotter, mostrou que a terapia com o cavalo melhorou a hiperatividade e impulsividade em crianças e adolescentes com o problema.

Conselheiro com certificado nacional, Trotter seguiu dois grupos. Um grupo participou do tratamento de aconselhamento em grupo com terapia equino-assistida, enquanto o outro grupo recebeu uma intervenção “prêmio ao vencedor” de aconselhamento baseado no currículo escolar.
Os resultados do estudo de Trotter sugerem que o tratamento equino-assistido foi estatisticamente mais eficaz na melhora da habilidade das crianças em focalizar e de permanecer na tarefa. A terapia também melhorou significativamente os sintomas de agressão, depressão e ansiedade do grupo. Os participantes do tratamento equino-assistido se ajustaram melhor às novas rotinas e professores, e facilmente mudaram de uma tarefa para outra. A autoestima e o autorrespeito aumentaram, e as amizades foram menos estressantes.

Feedback instantâneo é parte do porque essa terapia com “seres poderosos e interessantes” é tão eficaz, diz Kit Muellner, fundadora do Hope Ranch e trabalhadora clínica e social independente, licenciada. “Além de tudo, os clientes sentem que alcançaram algo por sua própria conta, em vez de fazer alguma coisa ordenada pelos pais ou por um professor. Um animal de mais de 500 quilos responde do modo que você quer que ele faça porque você foi capaz de prestar atenção. Então, você conquistou algo que queria fazer, contra o fazer algo que alguém queria que você fizesse”.
Como a terapia equino-assistida me ajudou
Tive uma lição num workshop de terapia equino-assistida para mulheres. Fomos reunidas aos pares para segurar um cavalo e leva-lo a certa área. Sem problemas, eu pensei, já tendo lidado com cavalos anteriormente. Então, o conselheiro disse, “Não é permitido falar”. Entrei em pânico.
Primeiro, estava em um lugar estranho. Segundo, estava trabalhando com alguém que não conhecia. Terceiro, não podia falar. De repente, descobri o quanto dependo das palavras, e como estava perdida sem minha voz. Por outro lado, desde a infância, minhas palavras me colocam em situações complicadas porque eu as digo sem pensar.
Para realizar essa tarefa, tive de usar a comunicação não verbal. Tive de acreditar em alguém que assumiu o papel de líder. Meu estômago retorceu, e comecei a suar. Nunca me esqueci daquela lição, e a visão que ela me deu de minha vida com TDAH. Suzi Landolphi, terapeuta com certificado, em Big Heart Ranch, em Malibu, California, mestre em psicologia, diz que, para trabalhar eficazmente com cavalos, “seu pensamento, emoções e a linguagem corporal têm de concordar. E não é justamente isso que o TDA impede que aconteça?”
Muellner me contou como a terapia equino-assistida ajudou um adulto jovem com grave TDAH. No Hope Ranch, os cavalos eram livres para ir e vir. Enquanto trabalhava um-a-um com um cliente, Muellner notou que “em alguns dias entrávamos no celeiro e os cavalos estavam por lá. Em outros dias, eles tinham saído”. Muellner diz que os cavalos ficavam no celeiro porque se sentiam ansiosos ao lado do seu tenso cliente, e que ele aprendeu a acalmar sua mente antes de entrar no celeiro.
Katherine, cuja filha Sarah foi diagnosticada com TDAH na idade de 12 anos, descobriu que a terapia equino-assistida ajudou a trazer muitas mudanças positivas para sua filha. Sarah estava no segundo grau quando foi encaminhada para a terapia. “Sarah teve um monte de mudanças”, diz Katherine. “Ela era rebelde, suas notas estavam caindo e tinha problemas sociais”.
Sarah foi encaminhada para um grupo de sete meninas que tinham sessões o dia todo por toda uma semana. Cada menina tinha um cavalo e um conselheiro. Como muitos participantes, Sarah nunca tinha ficado perto de um cavalo. Antes da terapia, diz Katherine, “A timidez de Sarah e seu comportamento reservado afastaram as outras meninas, e ela não conseguia fazer amigas”. Katherine observou sua filha durante uma sessão, e ficou impressionada com a bondade e compaixão de Sarah para outra menina que estava tendo muita dificuldade com o grupo.
“Ela também mostrava respeito em relação aos terapeutas e aos outros conselheiros em épocas em que não respeitava muito os adultos”, diz Katherine. “Eu vi uma criança diferente, assim como os professores de Sarah”. O melhor de tudo, é que muitas dessas mudanças permaneceram com ela muito depois de ter parado de fazer a terapia equino-assistida.
Nota do tradutor: Isso não é “Legal”? “Bacana”? “Massa”? “Jóia”?
E no Brasil? Qual é a experiência dos que lidam com equoterapia? Aguardo respostas. Dr Menegucci.

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